escrever para os outros

Fico indo e voltando nessa vontade de escrever para os outros.

Só porque eu acho que eles existem, esperando para ler.

E quando penso nesses outros, penso que já sabem tudo o que eu tenho para dizer.

Já leram de outras fontes, mais confiáveis e que escrevem melhor.

Antes de ir para o fim, volto no começo e paro.

Fico indo e voltando nessa busca de algo novo, nunca dito.

Se não fizer isso, vou perder o tempo do outro.

E perder o meu tempo, já que escrevo para os outros.

Desisto.

Então me dou conta de que existem outros que escrevem para mim.

E eles nem sabem que eu existo.

Não sabem que eu leio seus textos, que me emociono com o que criam.

Conseguem esse efeito porque não pensam em mim.

Esse é o segredo, que finalmente entendi.

Os outros não existem.

São criação minha.

Eles vivem aqui dentro.

São minha desculpa.

São arrogantes, exigentes e cruéis.

Não escrevo mais para eles.

Nem ninguém.

Como os verdadeiros outros, escrevo primeiramente para mim.

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ela ainda não sabe

Ela ainda não sabe. Ela está dormindo no sofá e ainda não sabe. Quando acordar, receberá a notícia que fará seu corpo não sentir a gravidade por alguns instantes. Fará ela achar que todos os órgãos do seu peito foram arrancados, deixando apenas um espaço vazio. Irá sentir como se lá dentro soltaram um pequeno passarinho que assustado tenta escapar, voando e trombando nas paredes a procura de uma saída. Voando e trombando, voando e trombando, o passarinho vai viver perdido naquela imensidão oca. Depois de alguns segundos, ela vai pensar que é o mesmo que sentiu no desaparecimento do Simba, quando esqueceram o portão de casa aberto, quando ela ficou sem saber o que fazer da vida, quando ela não conseguia nem imaginar como seria viver sem alguém que se ama. Achar que esses dois sentimentos são iguais será um consolo, por um tempo, mas com a passagem dos dias ela entenderá que a nova perda é bem pior. Levará muito tempo para o passarinho conseguir se libertar e para o seu peito ser preenchido por algo novo. Algo duro, seco, insensível, mas mais aceitável. Tudo isso terá início em breve, com a notícia. Mas agora ela ainda está dormindo tranquila e ainda não sabe.

insatisfação é uma coisa boa

Há alguns dias assisti a um vídeo de uma escritora onde ela comentava que tinha experimentado um sentimento de frustração quando terminou de escrever e publicar o seu livro. Ela tinha passado por um processo razoavelmente longo de escrita e, no final, no período de revisão e edição já não gostava mais tanto do resultado. E a principal justificativa é que ela mudou durante o processo.

Eu conheço bem esse sentimento, não apenas em relação à escrita. Já fui acusado de ser um eterno insatisfeito, como se isso fosse um grande mal.

Mas, refletindo sobre esse sentimento, não consigo vê-lo como um defeito. Na verdade, acredito que ele é efeito colateral de uma qualidade: a vontade de crescer.

A satisfação total só acontece quando a pessoa acredita que chegou no seu limite ou adquiriu todo o conhecimento que poderia. No caso da escrita, se o autor não tem um prazo a cumprir, acho muito difícil chegar a esse ponto. Estamos sempre estudando, mesmo que seja apenas lendo novos autores. Dessa forma, estamos em constante aprendizado.

Por isso, acho normal terminar algum trabalho ou texto e achar que poderia ser diferente e melhor. Quando eu olho alguma coisa que eu criei, já sou outra pessoa e já não gosto do mesmo jeito. E isso eu passei a considerar normal. Faz parte da profissão, tanto de redator como de escritor.

Porém, tem um detalhe muito importante: eu tento sempre reconhecer o meu esforço. Se eu pensasse que tudo que eu faço não é bom seria sempre desmotivador. Por outro lado, se eu encontrasse satisfação em tudo, ficaria sem um objetivo maior.

Portanto, vivo sempre nesse momento desafiador.

Apesar de sentir orgulho delas, sei que eu mudaria as coisas que escrevi ontem, porque nelas não encontro as coisas que eu sei hoje. E, por enquanto, gosto muito das coisas que estou escrevendo nesse momento, porque elas trazem tudo que eu sou hoje. Mas o que mais me anima e me motiva são as coisas que eu ainda vou escrever, afinal nelas é que me descobrirei um escritor melhor.