3 dicas de escrita da Ann Handley, especialista em marketing de conteúdo

Tenho me dedicado ao estudo sobre produção de conteúdo e o uso de storytelling, entendendo que a escrita criativa é uma ferramenta cada vez mais útil, aplicada em diversas áreas.

Sobre esse assunto, um livro que gosto bastante é o Everybody Writes, da Ann Handley. A Ann é uma especialista em marketing de conteúdo e trabalha com escrita para meios digitais, além de dar consultoria e ter uma newsletter muito legal que vale a pena seguir. Infelizmente o livro ainda não foi traduzido para o português, mas dá uma boa base sobre como produzir texto e conteúdo para os diversos formatos, tendo uma preocupação muito grande com a narrativa.

Na última newsletter que eu recebi da Ann, de número 70, ela dá dicas sobre o seu processo de escrita, que pode ser usado para diversas áreas de atuação. Gostei bastante, porque percebi que as sugestões dela têm muito a ver com as técnicas que eu também desenvolvi ao longo do tempo, na minha vida profissional, sendo redator publicitário, e também na minha escrita de ficção.

Basicamente ela aponta três etapas:

  1. Escrever diariamente por 15 minutos: registre pensamentos sem compromisso e sem a obrigação de gerar um texto completo. Dessa forma você gera material para trabalhar depois.
  2. Escreva rapidamente a primeira versão do seu texto: sem pensar muito e sem se policiar. Mas para facilitar o processo, antes de começar a escrever, dê uma olhada nas suas anotações diárias e aproveite ideias e insights que você foi anotando de forma aleatória.
  3. Reescreva com cuidado e atenção: depois que a primeira versão já está escrita, volte a ela para reescrever, preocupando-se em melhorar cada frase e cada parágrafo.

Na newsletter, a Ann conta que criou esse método porque ela odeia a parte de produzir a primeira versão, por isso desenvolveu um processo que ajuda nesse trabalho.

Para mim, é semelhante. Já falei em outros textos sobre a necessidade de se produzir uma base que possa ser trabalhada. Isso vem do meu trabalho com publicidade. Para poder escrever um texto, sempre precisei de um briefing, que nada mais é do que um conjunto de informações iniciais para que eu possa criar o texto.

No caso de Ann, ela criou um método de produzir essa base de informação inicial: escrever 15 minutos por dia, sobre o tema que você precisa produzir conteúdo.

E essa técnica é muito útil, porque rompe ainda mais a barreira de se policiar na hora de produzir a primeira versão, além de ter a vantagem de nunca começar com uma página em branco.

Eu, particularmente, uso muito o celular, sempre anotando pensamentos ou novas ideias no Evernote. Quando vou escrever, sincronizando com o computador, já tenho uma base para trabalhar. Tenho vontade de voltar a usar Acho que as anotações em cadernos são bastante produtivas, principalmente quando se tem esse hábito de se escrever todo dia como sugere a Ann Handley, e tenho vontade de usar mais essa opção. Outra técnica bastante útil são as Morning Pages, criado pela autora Julia Cameron, mas isso eu falarei melhor em outro post.

O ponto fundamental é: aproveite cada momento para ir anotando coisas sem compromisso para ter material de sobra quando precisar produzir seus textos. Isso ajuda muito.

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Links:

Para assinar a newsletter da Ann Handley – https://annhandley.com/newsletter

Livro da Everybody Writes, da Ann Handley – https://www.amazon.com.br/Everybody-Writes-Go-Creating-Ridiculously-ebook/dp/B00LMB5P0G/

escrever para os outros

Fico indo e voltando nessa vontade de escrever para os outros.

Só porque eu acho que eles existem, esperando para ler.

E quando penso nesses outros, penso que já sabem tudo o que eu tenho para dizer.

Já leram de outras fontes, mais confiáveis e que escrevem melhor.

Antes de ir para o fim, volto no começo e paro.

Fico indo e voltando nessa busca de algo novo, nunca dito.

Se não fizer isso, vou perder o tempo do outro.

E perder o meu tempo, já que escrevo para os outros.

Desisto.

Então me dou conta de que existem outros que escrevem para mim.

E eles nem sabem que eu existo.

Não sabem que eu leio seus textos, que me emociono com o que criam.

Conseguem esse efeito porque não pensam em mim.

Esse é o segredo, que finalmente entendi.

Os outros não existem.

São criação minha.

Eles vivem aqui dentro.

São minha desculpa.

São arrogantes, exigentes e cruéis.

Não escrevo mais para eles.

Nem ninguém.

Como os verdadeiros outros, escrevo primeiramente para mim.

ela ainda não sabe

Ela ainda não sabe. Ela está dormindo no sofá e ainda não sabe. Quando acordar, receberá a notícia que fará seu corpo não sentir a gravidade por alguns instantes. Fará ela achar que todos os órgãos do seu peito foram arrancados, deixando apenas um espaço vazio. Irá sentir como se lá dentro soltaram um pequeno passarinho que assustado tenta escapar, voando e trombando nas paredes a procura de uma saída. Voando e trombando, voando e trombando, o passarinho vai viver perdido naquela imensidão oca. Depois de alguns segundos, ela vai pensar que é o mesmo que sentiu no desaparecimento do Simba, quando esqueceram o portão de casa aberto, quando ela ficou sem saber o que fazer da vida, quando ela não conseguia nem imaginar como seria viver sem alguém que se ama. Achar que esses dois sentimentos são iguais será um consolo, por um tempo, mas com a passagem dos dias ela entenderá que a nova perda é bem pior. Levará muito tempo para o passarinho conseguir se libertar e para o seu peito ser preenchido por algo novo. Algo duro, seco, insensível, mas mais aceitável. Tudo isso terá início em breve, com a notícia. Mas agora ela ainda está dormindo tranquila e ainda não sabe.

insatisfação é uma coisa boa

Há alguns dias assisti a um vídeo de uma escritora onde ela comentava que tinha experimentado um sentimento de frustração quando terminou de escrever e publicar o seu livro. Ela tinha passado por um processo razoavelmente longo de escrita e, no final, no período de revisão e edição já não gostava mais tanto do resultado. E a principal justificativa é que ela mudou durante o processo.

Eu conheço bem esse sentimento, não apenas em relação à escrita. Já fui acusado de ser um eterno insatisfeito, como se isso fosse um grande mal.

Mas, refletindo sobre esse sentimento, não consigo vê-lo como um defeito. Na verdade, acredito que ele é efeito colateral de uma qualidade: a vontade de crescer.

A satisfação total só acontece quando a pessoa acredita que chegou no seu limite ou adquiriu todo o conhecimento que poderia. No caso da escrita, se o autor não tem um prazo a cumprir, acho muito difícil chegar a esse ponto. Estamos sempre estudando, mesmo que seja apenas lendo novos autores. Dessa forma, estamos em constante aprendizado.

Por isso, acho normal terminar algum trabalho ou texto e achar que poderia ser diferente e melhor. Quando eu olho alguma coisa que eu criei, já sou outra pessoa e já não gosto do mesmo jeito. E isso eu passei a considerar normal. Faz parte da profissão, tanto de redator como de escritor.

Porém, tem um detalhe muito importante: eu tento sempre reconhecer o meu esforço. Se eu pensasse que tudo que eu faço não é bom seria sempre desmotivador. Por outro lado, se eu encontrasse satisfação em tudo, ficaria sem um objetivo maior.

Portanto, vivo sempre nesse momento desafiador.

Apesar de sentir orgulho delas, sei que eu mudaria as coisas que escrevi ontem, porque nelas não encontro as coisas que eu sei hoje. E, por enquanto, gosto muito das coisas que estou escrevendo nesse momento, porque elas trazem tudo que eu sou hoje. Mas o que mais me anima e me motiva são as coisas que eu ainda vou escrever, afinal nelas é que me descobrirei um escritor melhor.