Neuromancer x Blade Runner – A determinação de William Gibson me motiva

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Estou lendo a Trilogia Sprawl, de William Gibson, e escrevi meu último post sobre a leitura de Count Zero, o segundo livro da série.

Para escrever esse post, eu consultei algumas informações sobre o autor e sua obra. E uma informação me chamou a atenção.

Em 1982, William Gibson recebeu a encomenda de escrever um livro para uma série de ficção científica. Quando ele tinha escrito dois terços do que viria a ser o Neurmonancer, seu primeiro livro, William Gibson assistiu ao filme Blade Runner e ficou preocupado.

Gibson achou que seu livro ia ser um fracasso, porque todo mundo iria achar que ele copiou todo o visual e clima do filme de Ridley Scott, baseado em um livro de Philip K. Dick, outro grande autor de ficção científica.

Por causa disso, William Gibson reescreveu 12 vezes esses dois terços do livro e mesmo assim ainda achava que iria passar vergonha quando o livro fosse lançado.

Essa curiosidade me fez relembrar que as pessoas às vezes acham que os grandes autores escreveram suas obras de primeira e que eles nunca passaram por momentos de descrença em seu próprio trabalho.

Além disso, percebemos sempre que um autor precisa ter a determinação e o desapego necessário para poder reescrever, reescrever e reescrever. Esse processo é difícil, penoso e desgastante, mas fundamental.

No momento, estou no meio do processo de reescrever um livro e para mim sempre é muito complicado. Mas saber que William Gibson precisou reescrever 12 vezes o Neuromancer me dá um pouco mais de motivação para continuar trabalhando na minha história.

Leituras 2016 – #2 – Count Zero

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William Gibson é um autor bastante cultuado. E o principal motivo é o fato dele ter criado o gênero cyberpunk. Além disso, Gibson criou, ainda na década de 80, vários termos usados em ficção científica que mais tarde foram utilizados de verdade. Foi ele, por exemplo, que criou o termo “cyberspace”. Também criou a ideia da Matrix, que consiste em mundo virtual acessado por hackers, que ele chamava de cowboys.

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Tudo isso começou com um conto chamado “Burning Chrome” (que eu não li), mas que conta a história de dois hackers que querem impressionar uma garota. Em seguida veio o conto “Johnny Minemonic” (esse eu li na década de noventa na época que foi lançado o filme com Keanu Reeves), que conta a história de um cara que foi modificado cirurgicamente e recebeu uma unidade de memória em sua cabeça e ele trabalha guardando informações sigilosas para pessoas e grandes corporações que não podem mais confiar no cyberspaço.

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Em “Burning Chrome”, Gibson criou o Sprawl, uma megacidade que vai de Boston a Atlanta. Em “Johnny Minemonic”, Gibson nos apresenta a personagem Molly Millions.

 

Esses dois elementos são a base inicial para a Trilogia Sprawl, composta de três livros:

 

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Neuromancer

Count Zero

Mona Lisa Overdrive

No final do ano passado eu li o Neuromancer e, agora, eu li o Count Zero.

Count Zero se passa 7 anos depois de Neuromancer, mas não tem uma ligação muito direta com os personagens e nem uma continuidade com a trama. Molly e Case, personagens centrais de Neuromancer são apenas citados em um momento do livro.

O tema central do livro gira em torno inteligências artificiais vivendo dentro da Matrix e são consideradas, às vezes, como deuses. É composto de três narrativas que apenas se encontram apenas na parte final do livro.

A primeira delas conta a história do Count Zero, apelido de Bobby Newmark, um hacker sem experiência, que testa um programa ilegal (uma espécie de droga virtual) que é dado a ele para acessar a Matrix. Count Zero quase morre, mas é salvo por uma imagem de uma moça que aparece para ele no cyberspaço.

A segunda conta a história de Turner, um mercenário que foi contratado para retirar um cientista de uma grande corporação. No mundo criado por Gibson, os empregados de uma empresa não podem mudar para uma empresa rival, ao menos que sejam resgatados por um mercenário. Turner acaba não conseguindo resgatar o cientista, mas sim a filha dele, que tem a capacidade de acessar a Matrix sem fazer uso de equipamento.

A terceira linha narrativa conta a história de Marly, uma especialista em arte e dona de galeria que é procurada por um homem chamado Virek para encontrar para ele o fabricante de umas pequenas caixas que estão relacionadas com biosoft.

 

Minhas impressões como leitor e escritor:

É fantástico ver como William Gibson criou toda essa linguagem em uma época onde não se tinha nenhuma referência sobre computação e redes como temos hoje. Além disso, ele criou um gênero totalmente novo, o cyberpunk e ditou a linguagem que muitos usam até o momento. A capacidade criativa dele deve ser respeitada por isso.

Porém, na minha opinião, a leitura é bem complexa. Eu achei o Count Zero um pouco mais fácil de ler e acompanhar do que o Neuromancer, apesar da quebra entre as três narrativas acabar contribuindo ainda mais para o entendimento.

Acho que Wiliam Gibson coloca muita informação nova de uma única vez e não contribui com descrições. Muitas vezes eu fiquei perdido, tentando entender onde os personagens estavam em determinada cena.

Count Zero é um daqueles livros que algumas vezes você tem que voltar algumas páginas para retomar o entendimento ou se situar novamente. Gibson não se preocupa muito em explicar detalhes sobre o universo criado por ele. Com o tempo é que as coisas passam a fazer mais sentido.

Eu não gosto quando em livros de ficção científica o autor faz grandes intervalos explicativos, tentando deixar claro para nós algo do universo criado, sendo que os personagens já estão familiarizados com isso. Mas Gibson não se preocupa em explicar quase nada dos novos termos que ele criou ou sobre como funciona as coisas no Sprawl. Até mesmo por isso os livros lançados pela editora Aleph vem com um glossário no final, explicando alguns termos e alguns conceitos.

Apesar de tudo isso, continua valendo muito a pena ler esse livro e a trilogia em si.

Mais uma vez, reforço que as coisas que William Gibson criou são fantásticas. Uma mente brilhante que é capaz de te surpreender, mesmo que você já tenha lido ou visto muito filme de ficção científica.

 

Nick Cave e o livro escrito em sacos de vômito

Fonte: Pitchfork

Nick Cave está lançando um novo livro, escrito inteirinho em sacos de vômito de companhias aéreas.

É isso mesmo. Nick usava os pequenos saquinhos como caderno enquanto viajava com sua banda The Bad Seeds, na turnê de 2014. O livro tem o sugestivo nome de The Sick Bag Song. Uma edição especial contará com um saco de vômito de verdade, customizado por Nick Cave com anotações, desenhos e letras, dois LPs com Nick Cave lendo o livro, além do próprio livro em duas versões: capa dura e capa simples.

No caso de Nick Cave, a mídia utilizada acabou sendo levada para o livro final, mas cada autor tem o seu jeito preferido de escrever. Enquanto o comum é se pensar em escrever em um computador, muitos ainda preferem meios mais tradicionais para contar suas histórias. Segundo alguns autores, a facilidade que o computador oferece em deletar e voltar em parágrafos anteriores acaba fazendo o lado crítico do seu cérebro entrar sempre em ação, o que é ruim no início do processo criativo. A maioria defende que não se deve ficar voltando para revisar o que se escreve. Pensando dessa forma, a escolha de Nick Cave em usar dacos de vômito foi acertada.

Acho interessante saber como os grandes autores escrevem suas histórias.

Alguns exemplos:

Vladimir Nabokov: ele não tinha toda a tecnologia disponível na época, mas o curioso é que ele escrevia seus livros em cartões (index cards), o que deixava de cortar ou mudar cenas de ordens. Outro fato curioso é que ele preferia escrever de pé.

Truman Capote: fazia o oposto, preferia escrever deitado, fumando um cigarro e tomando café. As duas primeiras versões do seus livros ele escrevia inteiramente a lápis e só passava para a máquina de escrever quando começava a reescrever a terceira versão.

Quentin Tarantino: escreve seus roteiros à caneta. Quando vai começar um novo trabalho, passa na livraria e compra um caderno e algumas canetas novas, como parte do ritual.

George R.R. Martin: o autor de Game of Thrones escreve em um antigo processador de texto, que roda o WordStar 4.0.

Neil Gaiman: assim como Capote, escreve as duas primeiras versões dos seus livros a mão, depois passa para o computador. O curioso é que faz isso para livros, mas quando vai escrever um roteiro, ele prefere já começar no computador.

Trecho de Deuses Americanos, do Neil Gaiman – Fonte: www.neilgaiman.com

Eu escrevo 99% no computador. Faço algumas anotações em qualquer coisa que estiver ao meu alcance: celular, post-it, bloco de notas. Mas escrever mesmo à mão só em alguns momentos bem específicos.

Quando eu estava escrevendo a primeira versão do meu primeiro livro, Outra Pessoa, cheguei a escrever uma parte à mão para fazer uma experiência.

Eu estava viajando e decidi escrever uma parte do livro durante o voo. Como vocês podem ver nas imagens.

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O interessante é que eu percebi que as coisas realmente mudam quando escrevo à mão. A escrita é mais lenta e a falta de possibilidade de deletar e reescrever a última palavra realmente te força a deixar para pensar nos ajustes mais tarde, quando passar para o computador.

Mas o mais interessante é que, de alguma forma, isso faz mudar um pouco o estilo da escrita também. É mais ou menos como no livro A Metade Negra, do Stephen King, onde o pseudônimo de um autor famoso ganha vida. Nessa história, o autor escrevia os seus livros à máquina e os livros do pseudônimo à mão, com estilos completamente diferentes.

Acho que isso aconteceu um pouco comigo. Talvez por isso, ou simplesmente coincidência, o trecho que eu escrevi a mão acabou sendo eliminada do livro quando o reescrevi pela terceira vez.

Independente de ser em computador, em papel ou em saco de vômito, como o Nick Cave, o importante é escrever sempre e contar suas histórias.