Livro em primeira pessoa: uma questão de ponto de vista

livros

Como comentei no post anterior, não desisti do livro que estou escrevendo e hoje voltei a trabalhar nele. Mas me lembrei que o primeiro motivo que me fez pensar em desistir dele foi a escolha do ponto de vista.

Na primeira versão, eu escrevi a história inteira em primeira pessoa. E a maioria das coisas que eu escrevo e grande parte dos livros que eu leio são em terceira pessoa.

Mas alguns dos meus livros favoritos são em primeira pessoa. Entre eles Psicopata Americano e Monstros Invisíveis. Então eu resolvi fazer uma experiência de também escrever tem primeira pessoa.

O livro que eu estou escrevendo não precisa, obrigatoriamente, ser escrito em primeira pessoa, foi apenas uma questão de escolha. E já quando eu comecei, não tinha tanta certeza que seria a melhor forma de contar a história.

Em literatura, existem diferentes pontos de vista de narração e a escolha faz toda diferença.

 

Os três tipos mais comuns de pontos de vista são:

– Primeira pessoa: um personagem que faz parte da ação está contando a história, geralmente o protagonista. Dessa forma, só sabemos o que o personagem sabe e é dele a percepção que temos de tudo que acontece na história. Esse tipo de ponto de vista é muito usado em livros policiais e de detetives, para acompanharmos a investigação e descobrirmos junto com o personagem o desfecho do caso. Mas também é usado em casos como o Clube da Luta, também do Chuck Palahniuk, onde realmente precisamos ter apenas a visão de um personagem, afinal, se tivéssemos a percepção dos outros personagens, a história não poderia ser contada.

– Terceira pessoa simples: um narrador que não participa da ação conta a história acompanhando um personagem, mas conta apenas o que esse personagem vivencia. É como se tivéssemos uma câmera acompanhando um personagem da história. Não ficamos indo para todos os lugares e não sabemos o que acontece em situações onde esse personagem não está presente. (Esse é o ponto de vista do meu livro Outra Pessoa, onde acompanhamos Olavo e só sabemos o que ele sabe)

– Terceira pessoa múltipla ou onisciente: o narrador não participa da ação e acompanha vários personagens, variando ao longo das cenas. Nesse caso, a “câmera” acompanha qualquer personagem, em qualquer ação e em qualquer cenário que seja necessário para contar a história.

 

Precisamos avaliar o que é o melhor para contar a história.

No meu caso específico, desse livro em particular, apenas descobri que eu não gostei do resultado final. Então, ao invés de abandona-lo, resolvi reescrever em terceira pessoa simples. Ainda assim, enquanto escrevia a terceira versão, fiquei na dúvida se a terceira pessoa múltipla não teria sido uma melhor escolha para contar a história. (Enquanto não terminar, vou sempre ter várias dúvidas)

Mas, agora na quarta versão, finalmente fiz as pazes com o meu livro. Consegui resolver alguns problemas de narrativa, inclui algumas cenas, criei um ou dois personagens novos e, assim, defini que ele será em terceira pessoa simples.

E continuo sem planos de desistir dele.

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3 razões para não desistir de escrever

scott

 

Eu estou escrevendo um livro há um bom tempo. Já estou na quarta versão e, mais uma vez, eu pensei em desistir dele.

Basicamente, fico dividido entre dois pensamentos: “já coloquei tanto tempo nessa história, uma hora ela vai funcionar” “estou perdendo tempo demais com essa história, poderia escrever outras coisas”.

Como vocês podem ver, a questão que me incomoda é o tempo.

Para mim, o tempo que se leva para escrever um livro sempre foi determinante na hora de começar a escrever.

“Será que vai valer a pena? E se chegar no final e eu só descobrir que perdi tempo?”

Já consegui superar esse problema de não começar as coisas. Não penso muito se vai valer a pena escrever alguma história, porque, de verdade, acho que escrever sempre vale a pena. Mas agora o tempo (ou a falta dele) tem feito eu pensar seriamente em desistir.

Em uma das vezes em que pensei em desistir de escrever esse livro, eu li uma entrevista do Scott Westerfeld, em que ele dá umas dicas para escrever livros e a primeira delas é a que ilustra esse post.

Essa entrevista me ajudou a não desistir e eu consegui terminar a segunda versão do livro e continuar até a versão atual.

Mas como a vontade de desistir voltou, resolvi fazer uma pequena lista dos motivos para não desistir. Coisas que eu tenho que lembrar todas as vezes que penso em jogar esse livro na lixeira.

 

1. Pratique terminar: como Scott Westerfeld disse, termine, nem que seja como uma forma de exercício. Torne–se bom em terminar livros. É fácil falar “estou escrevendo um livro” ou “comecei a escrever um livro”, mas são poucos os que podem dizer “escrevi um livro”.

2. Escrever significa reescrever: não fique descontente com o que você tem até o momento, você pode sempre consertar a história e deixá–la melhor.

3. Terminar motiva: o sentimento de dever cumprido te faz querer repetir a dose e isso lhe dará outros livros, novas histórias.

 

Talvez eu passe mais um bom tempo reescrevendo esse livro, mas não vou desistir.

Quando terminar, eu aviso.

Lacuna: uma biblioteca feita de livros

Fonte: http://www.projectlacuna.com

O Bay Area Book Festival, que acontece nos dias 6 e 7 de junho, em Berkeley, poderá receber uma biblioteca feita de 50 mil livros.

O projeto chama-se Lacuna e foi criado pela Flux Foundation, um grupo sem fins lucrativos que desenvolve projetos de arte pública. Eles estão tentando levantar a verba no Kickstarter.

Segundo a ideia do projeto, os participantes poderão retirar livros das paredes enquanto visitam a instalação e, dessa forma, fazer a biblioteca ir se transformando, com mudança na iluminação e na acústica da instalação.

Os 50 mil livros utilizados para construir a Lacuna serão doados pela Internet Archive. O acesso será gratuito e todos os livros removidos pelos participantes do festival poderão ser levados para casa sem custo algum.

Eu bem que gostaria de estar lá para poder levar pelo menos uma parede dessas de livros para casa.

Se quiser conhecer mais detalhes, basta entrar no site do projeto aqui.

Nick Cave e o livro escrito em sacos de vômito

Fonte: Pitchfork

Nick Cave está lançando um novo livro, escrito inteirinho em sacos de vômito de companhias aéreas.

É isso mesmo. Nick usava os pequenos saquinhos como caderno enquanto viajava com sua banda The Bad Seeds, na turnê de 2014. O livro tem o sugestivo nome de The Sick Bag Song. Uma edição especial contará com um saco de vômito de verdade, customizado por Nick Cave com anotações, desenhos e letras, dois LPs com Nick Cave lendo o livro, além do próprio livro em duas versões: capa dura e capa simples.

No caso de Nick Cave, a mídia utilizada acabou sendo levada para o livro final, mas cada autor tem o seu jeito preferido de escrever. Enquanto o comum é se pensar em escrever em um computador, muitos ainda preferem meios mais tradicionais para contar suas histórias. Segundo alguns autores, a facilidade que o computador oferece em deletar e voltar em parágrafos anteriores acaba fazendo o lado crítico do seu cérebro entrar sempre em ação, o que é ruim no início do processo criativo. A maioria defende que não se deve ficar voltando para revisar o que se escreve. Pensando dessa forma, a escolha de Nick Cave em usar dacos de vômito foi acertada.

Acho interessante saber como os grandes autores escrevem suas histórias.

Alguns exemplos:

Vladimir Nabokov: ele não tinha toda a tecnologia disponível na época, mas o curioso é que ele escrevia seus livros em cartões (index cards), o que deixava de cortar ou mudar cenas de ordens. Outro fato curioso é que ele preferia escrever de pé.

Truman Capote: fazia o oposto, preferia escrever deitado, fumando um cigarro e tomando café. As duas primeiras versões do seus livros ele escrevia inteiramente a lápis e só passava para a máquina de escrever quando começava a reescrever a terceira versão.

Quentin Tarantino: escreve seus roteiros à caneta. Quando vai começar um novo trabalho, passa na livraria e compra um caderno e algumas canetas novas, como parte do ritual.

George R.R. Martin: o autor de Game of Thrones escreve em um antigo processador de texto, que roda o WordStar 4.0.

Neil Gaiman: assim como Capote, escreve as duas primeiras versões dos seus livros a mão, depois passa para o computador. O curioso é que faz isso para livros, mas quando vai escrever um roteiro, ele prefere já começar no computador.

Trecho de Deuses Americanos, do Neil Gaiman – Fonte: www.neilgaiman.com

Eu escrevo 99% no computador. Faço algumas anotações em qualquer coisa que estiver ao meu alcance: celular, post-it, bloco de notas. Mas escrever mesmo à mão só em alguns momentos bem específicos.

Quando eu estava escrevendo a primeira versão do meu primeiro livro, Outra Pessoa, cheguei a escrever uma parte à mão para fazer uma experiência.

Eu estava viajando e decidi escrever uma parte do livro durante o voo. Como vocês podem ver nas imagens.

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O interessante é que eu percebi que as coisas realmente mudam quando escrevo à mão. A escrita é mais lenta e a falta de possibilidade de deletar e reescrever a última palavra realmente te força a deixar para pensar nos ajustes mais tarde, quando passar para o computador.

Mas o mais interessante é que, de alguma forma, isso faz mudar um pouco o estilo da escrita também. É mais ou menos como no livro A Metade Negra, do Stephen King, onde o pseudônimo de um autor famoso ganha vida. Nessa história, o autor escrevia os seus livros à máquina e os livros do pseudônimo à mão, com estilos completamente diferentes.

Acho que isso aconteceu um pouco comigo. Talvez por isso, ou simplesmente coincidência, o trecho que eu escrevi a mão acabou sendo eliminada do livro quando o reescrevi pela terceira vez.

Independente de ser em computador, em papel ou em saco de vômito, como o Nick Cave, o importante é escrever sempre e contar suas histórias.

O único jeito de começar

Jodi Picoult

Você pode ler sobre como escrever, estudar escrita, falar em escrever, pensar em escrever, mas só tem um jeito de escrever: escrevendo.

Parece uma afirmação idiota, mas não é.

Por muito tempo eu fiz isso. Li, estudei, falei, pensei e planejei escrever. E toda vez que eu tentava escrever, achava que ainda não estava “pronto”, ou que tinha que esperar uma grande ideia aparecer.

Eu começava a escrever e já na segunda linha, voltava para analisar a primeira. Quase sempre chegando à mesma conclusão: “Isso não está bom.”

Tentava reescrever, mas desistia em seguida. Não conseguia encontrar a primeira frase perfeita, então não passava para a segunda e o texto morria.

Hoje, pelo menos, eu sei que a primeira frase não precisa ser perfeita. Nem ela, nem nenhuma outra. Não naquele momento. Aprendi que não devo me preocupar nessa fase da escrita.

A primeira linha que eu escrevo muito provavelmente nem estará na versão final. O primeiro parágrafo será bem diferente quando eu for reescrever o texto pela segunda, terceira ou quarta vez.

O maior bloqueio que um escritor pode ter é achar que as primeiras palavras que ele coloca no papel já têm que fazer sentido e serem algo incrível. O lado crítico entra em ação e insiste em dizer que não está bom.

O fato é que, no começo, não precisa mesmo estar bom. E isso é libertador.

Eu costumo chamar a primeira versão de um texto de “produção de matéria prima”. A analogia é simples. Um escultor não começa a fazer uma escultura sem sua matéria prima. Ele pega um bolo disforme de argila e começa a trabalhar, transformando em algo visualmente interessante. Ele faz e desfaz até chegar ao ponto que dá por finalizada sua obra.

A matéria prima do escritor não é uma página em branco e sim as palavras que ele coloca nela, mesmo que no começo elas não façam muito sentido e não tenham uma ideia totalmente definida. As páginas cheias de palavras são a argila. Podemos trocar palavras aqui, acrescentar algumas ali, remover frases inteiras, apagar adjetivos desnecessários, melhorar toda e qualquer estrutura. Podemos mexer e mexer até julgar que está pronto.

A grande magia de escrever é que nada é definitivo até ser impresso ou publicado. No momento que você entende isso, você se liberta.

Esse post é um bom exemplo disso.

Quando comecei a escrever, fiquei na dúvida se conseguiria (sempre começo com essa dúvida e acho que isso nunca vai mudar). Mesmo assim escrevi, porque sabia que eu voltaria algumas vezes e consertaria o que achasse necessário.

Ainda não acho que esteja perfeito, mas preciso começar esse blog. E um blog só se começa de um jeito: publicando o que se escreveu.