Nick Cave e o livro escrito em sacos de vômito

Fonte: Pitchfork

Nick Cave está lançando um novo livro, escrito inteirinho em sacos de vômito de companhias aéreas.

É isso mesmo. Nick usava os pequenos saquinhos como caderno enquanto viajava com sua banda The Bad Seeds, na turnê de 2014. O livro tem o sugestivo nome de The Sick Bag Song. Uma edição especial contará com um saco de vômito de verdade, customizado por Nick Cave com anotações, desenhos e letras, dois LPs com Nick Cave lendo o livro, além do próprio livro em duas versões: capa dura e capa simples.

No caso de Nick Cave, a mídia utilizada acabou sendo levada para o livro final, mas cada autor tem o seu jeito preferido de escrever. Enquanto o comum é se pensar em escrever em um computador, muitos ainda preferem meios mais tradicionais para contar suas histórias. Segundo alguns autores, a facilidade que o computador oferece em deletar e voltar em parágrafos anteriores acaba fazendo o lado crítico do seu cérebro entrar sempre em ação, o que é ruim no início do processo criativo. A maioria defende que não se deve ficar voltando para revisar o que se escreve. Pensando dessa forma, a escolha de Nick Cave em usar dacos de vômito foi acertada.

Acho interessante saber como os grandes autores escrevem suas histórias.

Alguns exemplos:

Vladimir Nabokov: ele não tinha toda a tecnologia disponível na época, mas o curioso é que ele escrevia seus livros em cartões (index cards), o que deixava de cortar ou mudar cenas de ordens. Outro fato curioso é que ele preferia escrever de pé.

Truman Capote: fazia o oposto, preferia escrever deitado, fumando um cigarro e tomando café. As duas primeiras versões do seus livros ele escrevia inteiramente a lápis e só passava para a máquina de escrever quando começava a reescrever a terceira versão.

Quentin Tarantino: escreve seus roteiros à caneta. Quando vai começar um novo trabalho, passa na livraria e compra um caderno e algumas canetas novas, como parte do ritual.

George R.R. Martin: o autor de Game of Thrones escreve em um antigo processador de texto, que roda o WordStar 4.0.

Neil Gaiman: assim como Capote, escreve as duas primeiras versões dos seus livros a mão, depois passa para o computador. O curioso é que faz isso para livros, mas quando vai escrever um roteiro, ele prefere já começar no computador.

Trecho de Deuses Americanos, do Neil Gaiman – Fonte: www.neilgaiman.com

Eu escrevo 99% no computador. Faço algumas anotações em qualquer coisa que estiver ao meu alcance: celular, post-it, bloco de notas. Mas escrever mesmo à mão só em alguns momentos bem específicos.

Quando eu estava escrevendo a primeira versão do meu primeiro livro, Outra Pessoa, cheguei a escrever uma parte à mão para fazer uma experiência.

Eu estava viajando e decidi escrever uma parte do livro durante o voo. Como vocês podem ver nas imagens.

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O interessante é que eu percebi que as coisas realmente mudam quando escrevo à mão. A escrita é mais lenta e a falta de possibilidade de deletar e reescrever a última palavra realmente te força a deixar para pensar nos ajustes mais tarde, quando passar para o computador.

Mas o mais interessante é que, de alguma forma, isso faz mudar um pouco o estilo da escrita também. É mais ou menos como no livro A Metade Negra, do Stephen King, onde o pseudônimo de um autor famoso ganha vida. Nessa história, o autor escrevia os seus livros à máquina e os livros do pseudônimo à mão, com estilos completamente diferentes.

Acho que isso aconteceu um pouco comigo. Talvez por isso, ou simplesmente coincidência, o trecho que eu escrevi a mão acabou sendo eliminada do livro quando o reescrevi pela terceira vez.

Independente de ser em computador, em papel ou em saco de vômito, como o Nick Cave, o importante é escrever sempre e contar suas histórias.

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O único jeito de começar

Jodi Picoult

Você pode ler sobre como escrever, estudar escrita, falar em escrever, pensar em escrever, mas só tem um jeito de escrever: escrevendo.

Parece uma afirmação idiota, mas não é.

Por muito tempo eu fiz isso. Li, estudei, falei, pensei e planejei escrever. E toda vez que eu tentava escrever, achava que ainda não estava “pronto”, ou que tinha que esperar uma grande ideia aparecer.

Eu começava a escrever e já na segunda linha, voltava para analisar a primeira. Quase sempre chegando à mesma conclusão: “Isso não está bom.”

Tentava reescrever, mas desistia em seguida. Não conseguia encontrar a primeira frase perfeita, então não passava para a segunda e o texto morria.

Hoje, pelo menos, eu sei que a primeira frase não precisa ser perfeita. Nem ela, nem nenhuma outra. Não naquele momento. Aprendi que não devo me preocupar nessa fase da escrita.

A primeira linha que eu escrevo muito provavelmente nem estará na versão final. O primeiro parágrafo será bem diferente quando eu for reescrever o texto pela segunda, terceira ou quarta vez.

O maior bloqueio que um escritor pode ter é achar que as primeiras palavras que ele coloca no papel já têm que fazer sentido e serem algo incrível. O lado crítico entra em ação e insiste em dizer que não está bom.

O fato é que, no começo, não precisa mesmo estar bom. E isso é libertador.

Eu costumo chamar a primeira versão de um texto de “produção de matéria prima”. A analogia é simples. Um escultor não começa a fazer uma escultura sem sua matéria prima. Ele pega um bolo disforme de argila e começa a trabalhar, transformando em algo visualmente interessante. Ele faz e desfaz até chegar ao ponto que dá por finalizada sua obra.

A matéria prima do escritor não é uma página em branco e sim as palavras que ele coloca nela, mesmo que no começo elas não façam muito sentido e não tenham uma ideia totalmente definida. As páginas cheias de palavras são a argila. Podemos trocar palavras aqui, acrescentar algumas ali, remover frases inteiras, apagar adjetivos desnecessários, melhorar toda e qualquer estrutura. Podemos mexer e mexer até julgar que está pronto.

A grande magia de escrever é que nada é definitivo até ser impresso ou publicado. No momento que você entende isso, você se liberta.

Esse post é um bom exemplo disso.

Quando comecei a escrever, fiquei na dúvida se conseguiria (sempre começo com essa dúvida e acho que isso nunca vai mudar). Mesmo assim escrevi, porque sabia que eu voltaria algumas vezes e consertaria o que achasse necessário.

Ainda não acho que esteja perfeito, mas preciso começar esse blog. E um blog só se começa de um jeito: publicando o que se escreveu.