ela ainda não sabe

Ela ainda não sabe. Ela está dormindo no sofá e ainda não sabe. Quando acordar, receberá a notícia que fará seu corpo não sentir a gravidade por alguns instantes. Fará ela achar que todos os órgãos do seu peito foram arrancados, deixando apenas um espaço vazio. Irá sentir como se lá dentro soltaram um pequeno passarinho que assustado tenta escapar, voando e trombando nas paredes a procura de uma saída. Voando e trombando, voando e trombando, o passarinho vai viver perdido naquela imensidão oca. Depois de alguns segundos, ela vai pensar que é o mesmo que sentiu no desaparecimento do Simba, quando esqueceram o portão de casa aberto, quando ela ficou sem saber o que fazer da vida, quando ela não conseguia nem imaginar como seria viver sem alguém que se ama. Achar que esses dois sentimentos são iguais será um consolo, por um tempo, mas com a passagem dos dias ela entenderá que a nova perda é bem pior. Levará muito tempo para o passarinho conseguir se libertar e para o seu peito ser preenchido por algo novo. Algo duro, seco, insensível, mas mais aceitável. Tudo isso terá início em breve, com a notícia. Mas agora ela ainda está dormindo tranquila e ainda não sabe.

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insatisfação é uma coisa boa

Há alguns dias assisti a um vídeo de uma escritora onde ela comentava que tinha experimentado um sentimento de frustração quando terminou de escrever e publicar o seu livro. Ela tinha passado por um processo razoavelmente longo de escrita e, no final, no período de revisão e edição já não gostava mais tanto do resultado. E a principal justificativa é que ela mudou durante o processo.

Eu conheço bem esse sentimento, não apenas em relação à escrita. Já fui acusado de ser um eterno insatisfeito, como se isso fosse um grande mal.

Mas, refletindo sobre esse sentimento, não consigo vê-lo como um defeito. Na verdade, acredito que ele é efeito colateral de uma qualidade: a vontade de crescer.

A satisfação total só acontece quando a pessoa acredita que chegou no seu limite ou adquiriu todo o conhecimento que poderia. No caso da escrita, se o autor não tem um prazo a cumprir, acho muito difícil chegar a esse ponto. Estamos sempre estudando, mesmo que seja apenas lendo novos autores. Dessa forma, estamos em constante aprendizado.

Por isso, acho normal terminar algum trabalho ou texto e achar que poderia ser diferente e melhor. Quando eu olho alguma coisa que eu criei, já sou outra pessoa e já não gosto do mesmo jeito. E isso eu passei a considerar normal. Faz parte da profissão, tanto de redator como de escritor.

Porém, tem um detalhe muito importante: eu tento sempre reconhecer o meu esforço. Se eu pensasse que tudo que eu faço não é bom seria sempre desmotivador. Por outro lado, se eu encontrasse satisfação em tudo, ficaria sem um objetivo maior.

Portanto, vivo sempre nesse momento desafiador.

Apesar de sentir orgulho delas, sei que eu mudaria as coisas que escrevi ontem, porque nelas não encontro as coisas que eu sei hoje. E, por enquanto, gosto muito das coisas que estou escrevendo nesse momento, porque elas trazem tudo que eu sou hoje. Mas o que mais me anima e me motiva são as coisas que eu ainda vou escrever, afinal nelas é que me descobrirei um escritor melhor.

Foe – Uma bela surpresa e um belo retrato da arte da escrita

Recentemente, li vários livros do Coetzee, principalmente seus livros de autoficção.

Cheguei em Foe por ele ser citado no livro Verão, mas confesso que depois que comprei é que fui prestar atenção na sinopse. E me decepcionei.

Na minha cabeça a premissa que eu li na orelha do livro me fez pensar em uma trama complexa e confusa, muito provavelmente cheia de referências literárias que iriam deixar tudo monótono e enfadonho.

Acho que isso é normal, né? Todos nós tentamos imaginar a história que está por vir, numa tentativa de definir se vale a pena ler livro.

Mas não é a toa que Coetzee recebeu o prêmio Nobel.

O livro superou todas minhas expectativas. Trata-se uma bela história sobre as inspirações, as musas e o ofício do escritor, mas tudo isso contado de uma forma maravilhosa.

E além de ler uma obra incrível, que me ensiniu várias coisas como escritor, aprendi uma lição ainda maior. Daqui pra frente, darei mais chances aos livros cujas sinopses pareçam estranhas e formem histórias mediocres na minha cabeça.

Muitas vezes, a mediocridade está só na nossa imaginação 🙂

Os 6 passos do meu novo processo de escrita

Como eu falei no meu post anterior, durante a reescrita final do “Querendo Ser Elvis” eu comecei a pensar em mudar meu processo de escrita. Ou pelo menos testar um método diferente.

E resolvi já testar com o meu próximo livro, que estou escrevendo no momento.

O fato principal que levou a essa mudança foi notar que, depois que os capítulos estavam todos escritos (bem próximos da versão final), ficava mais difícil eu alterar alguma coisa. Isso acontece porque é difícil desapegar de algo que você julga que está pronto, mas também porque qualquer mudança que se faz nesse estágio gera uma série de ajustes em diferentes partes da estrutura do livro e até mesmo na história em si.

Percebi que seria melhor se eu tivesse feito uma análise da história, antes dela estar totalmente escrita. Mas, para isso, eu precisaria ter os detalhes da trama mais bem definidos. Ou seja, ter um planejamento ou um outline, que para mim é um problema porque eu não tenho o hábito de planejar meus livros. Meu processo normal é sair escrevendo para descobrir a história.

De qualquer forma, ainda estou em fase de experiência desse novo jeito de construir a história e só no futuro poderei dizer se valeu a pena.

Mas já vou detalhar um pouco os passos do processo:

1 – Criar o plot e desenvolver personagens

Nesse caso, eu já tinha um primeiro draft escrito, com aproximadamente 80 mil palavras. Escrevi ele no meu jeito antigo, ou seja, já com cara de livro, cheio de diálogos e descrições, etc.

Mas ele serviu basicamente para conhecer os personagens e saber como eles se desenvolvem na trama.

(Talvez no próximo livro eu não escreva um draft tão bem acabado já no início. Principalmente sabendo que vou jogar ele fora em seguida.)

2 – Análise da estrutura, dos personagens e do plot

No meu processo antigo, depois do primeiro draft, eu faria uma análise de cada capítulo e da história em geral (que estaria “quase pronta”) e reescreveria a partir dessas 80 mil palavras, aproveitando a sua maioria.

Mas agora eu passei a fazer diferente.

Fiz uma análise mais profunda e com mais desapego, me antecipando aos erros que eu poderia estar cometendo nessa história em relação a conflitos, caracterização de personagens, cenas, ritmo, ponto de vista, etc.

Depois, fiz uma lista do que eu gostava e sentia que estava funcionando na história, e fiz outra lista com as coisas que me incomodavam e que eu achava que estavam sobrando, ou estavam forçadas, ou não estavam agregando ao plot.

3 – Redefinição da história

Com base em toda a análise, redefini o plot, reavaliei os personagens e suas motivações, criei novos subplots, adequei ritmo, etc.

Nessa fase, anotei a essência de cada capítulo, escrevendo um parágrafo sobre cada um, explicando para mim mesmo o papel daquela cena no livro.

4 – Criar o outline (ou reescrever o outline)

Nesse ponto, abandonei totalmente as 80 mil palavras já escritas e comecei a escrever do zero, mas sem me preocupar ainda em formatar um texto final. Fui dando mais detalhes para cada capítulo, explicando como a cena irá se desenrolar, o que os personagens estarão vivendo naquela cena, o que estarão pensando e falando.

(Foi nesse momento, nesse caso específico, que me dei conta que eu estava, na verdade, escrevendo um outline ao invés de um draft. Era um outline bem detalhado, mas ainda assim era um outline.)

Essa outline ficou com quase 25 mil palavras. Na minha opinião esse já é um volume grande de palavras, com bastante detalhamento, mas ainda assim senti que alguns capítulos estavam superficiais e fui eliminando aqueles que não estavam acrescentando muito.

5 – Timeline com Pontos-Chave

Depois de criar esse outline mais detalhado, eu percebi alguns furos na história e algumas coisas que estavam faltando. Resolvi, então, montar uma tabela onde coloquei os 6 pontos fundamentais na cronologia da minha história. Listei os meus quatro personagens principais e mais uma meia dúzia de personagens secundários, que são fundamentais para contar a história. Assim, fui preenchendo a tabela, definindo como cada personagem se comporta e interage em cada momento da história, definindo suas mudanças e sua evolução.

6 – Outline final

Agora, pretendo reescrever tudo, ainda em formato de outline, mas planejando cada capítulo e cada cena com ainda mais detalhes, inserindo os elementos que incluí na timeline.

Minha ideia é só começar a dar um formato mais final para o texto quando estiver satisfeito com esse outline, já bem definido e com ainda mais detalhes.

 

Espero que esses novos passos me ajudem a ter um livro melhor. Mas se não der certo, também não tem problema. Revejo o processo e tento de outra forma.

 

Como ter uma mente produtiva

Nos últimos tempos, ando obcecado por produtividade.

São tantas histórias que eu tenho vontade de escrever, mas sempre acabo tendo que escolher, porque o processo, muitas vezes demorado, me limita a produzir poucas histórias.

Mas então lembro dos vários escritores prolíficos que existiram e ainda existem por aí. Autores que conseguem produzir vários livros por ano, usando vários pseudônimos ou simplesmente não se importando com o que pensam sobre esse ritmo de produção. É que existe muita gente no mercado editorial que torce o nariz para autores que publicam demais, dizendo que não é bom para a carreira e que perdem em qualidade. Na verdade, o que eu acredito é que o processo não sai prejudicado, a diferença é que os autores prolíficos simplesmente não perdem tempo e produzem constantemente.

Se fizermos uma conta rápida e imaginar que um livro, em média, tem 70 mil palavras e uma pessoa é capaz de escrever tranquilamente 1000 palavras por dia (isso é bem tranquilo mesmo), pode-se produzir um livro a cada 70 dias. O que dá 5 livros em um ano.

(É claro que tem a fase de reescrita, edição e revisão, mas também devemos levar em consideração que um escritor pode ir além das 1000 palavras por dia.)

Analisando friamente o trabalho necessário, chegamos a conclusão que é possível produzir bem mais do que um livro por ano. E, produzindo mais, melhora-se o processo, já que quanto mais você escreve, melhor e mais rápido você fica.

Porém, a grande verdade é que o ato de escrever não é o problema, o difícil é se comprometer com um tempo para escrever.  O grande desafio é: como usar o tempo que tenho de sobra para escrever?

Portanto, eu estou agora em busca de uma rotina e um hábito de escrita para aumentar minha produtividade. Tenho testando diversos métodos e formas diferentes de encarar o trabalho.

O nosso cérebro é uma máquina poderosa, tanto para o bem, como para o mal. Basta observar que, se queremos arrumar desculpas para não fazer alguma coisa, pronto, temos milhares de justificativas. Nossos pensamentos arrumam todos os motivos e razões para não fazer nada. Portanto, podemos usar essa mesma capacidade do cérebro para produzir mais.

Descobri que não posso deixar meu cérebro achar que eu deveria estar fazendo outra coisa ao invés de escrever. Não posso deixar que ele pense que aquilo que eu pretendo fazer não precisa ser feito naquele momento e pode ser deixado para depois.

Se conseguimos criar desculpas, conseguimos criar motivação. E assim eu aprendi alguns truques para fazer minha mente ter disposição e não me sabotar.

Criar pequenas recompensas

Às vezes eu sinto vontade de fazer outra coisa ou simplesmente, parar e comer chocolate. Então eu penso que para merecer aquele descanso ou aquele chocolate, eu preciso escrever pelo menos 1000 palavras ou escrever por pelo menos uma hora. (Eu sei que parece meio infantil, mas lembre-se que fomos treinados dessa forma desde que nascemos, então faz sentido). Após eu escrever meu texto ou cumprir determinado tempo, eu recebo minha recompensa.

Criar intervalos

Eu divido o tempo entre trabalho e prazer. Além do intervalo funcionar como recompensa, temos outro truque que é a quebra da tarefa. Muitas vezes acreditamos que a tarefa será muito trabalhosa e já desistimos dela, apenas por vislumbrar um desafio muito grande que achamos que não iremos conseguir. Por exemplo: escrever por duas horas no dia. Começamos a achar que não vamos conseguir trabalhar por duas horas seguidas e seremos interrompidos, então nem vale a pena começar, etc, etc. Mas então, quando fracionamos esse tempo em 4 blocos de meia hora, com intervalos de lazer entre eles, fazemos tudo mais facilmente.

Pequenas doses, grandes mudanças

Para os momentos de maior grau de procrastinação, eu engano o meu cérebro com pequenas doses. Pense assim: “vou fazer apenas por cinco minutos”. E faça apenas por cinco minutos. Se você sentir vontade de parar depois do cinco minutos, pare. Mais tarde, faça apenas mais cinco minutos, novamente. Mas caso você sinta vontade de continuar, continue. Você vai perceber que, em muitos casos, o problema era começar. Uma vez que você já colocou seu corpo e sua mente naquele trabalho, você acaba embalando e não para (lei da inércia). Essa tática do “apenas 5 minutos” é uma grande forma de começar a criar hábito, que é o truque mais importante.

CRIE HÁBITOS

Hábito é o mais importante para a produtividade. Não tente apenas fazer uma vez, esperar uns dias, fazer de novo. Tente começar uma rotina diária. Mesmo que seja uma sessão de 5 minutos por dia, faça todos os dias, por pelo menos 3 semanas. Um hábito é criado após 21 dias de repetição. Então, não desista nesses primeiros dias. Eles são importantes para criar uma rotina. Você vai perceber que, depois de criada a rotina, fica mais fácil melhorá-la ou criar uma nova.

Leituras 2016 – #3 – Cidade de Vidro

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Eu mantenho sempre uma lista de próximos livros que quero ler. Não necessariamente uma ordem fixa, mas coloco sempre algumas prioridades, seja por causa do gênero, do estilo, do ponto de vista ou do autor.

De vez em quando, eu acabo descobrindo algum livro interessante e acabo lendo antes de muitos outros que estão esperando sua vez.

Foi o que aconteceu com o livro Cidade de Vidro.

Eu descobri o livro de Paul Auster por acaso, lendo uma matéria sobre trilogias que me deixou muito curioso.

Paul Auster escreve histórias policiais, mas usando um estilo pós-moderno, repleto de absurdos, coincidências e adora uma metalinguagem, que deixa tudo ainda mais maluco ainda.

Cidade de Vidro é a primeira história que forma “A Trilogia de Nova York” e conta a história de Daniel Quinn, que também é um escritor de histórias policiais e recebe uma ligação por engano. A pessoa do outro lado da linha procura por um detetive particular. E aqui começa a doidera. O detetive particular se chama: Paul Auster.

E as maluquices não param mais. Não só na história, mas na própria construção da narrativa.

Paul Auster deu o seu nome para o personagem do livro, mas o livro não é em primeira pessoa, ou seja, não é narrado por esse Paul Auster, detetive particular.

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Daniel Quinn, o personagem principal, também escreve livros policiais e decide fingir que é Paul Auster, o detetive particular, para sentir na pele o que sempre escreveu.

O protagonista então começa a investigar uma trama enlouquecida da busca de um homem pelo paraíso, Torre de Babel, linguagem primal, etc. Essa parte da história é narrada usando muita a técnica de exposição. E tanto por esse estilo como pelo conteúdo, me lembrou muito as histórias de Borges, Lovecraft e Poe. Uma história misteriosa e intrigante, que ele vai tomando conhecimento por livros que ele pesquisa na biblioteca. Essa parte do mistério poderia render muito mais, mas Auster optou por apenas usar isso como um pano de fundo para toda a trama.

Para mim, o mais interessante do livro é que Paul Auster se prende a nenhum formato pré-definido, ficando até difícil de cataloga-lo como livro de mistério. Além disso, a questão de identidade é um tema que ele explora bem, desde a questão do personagem se passar por outra pessoa, depois descobrir que essa outra pessoa é diferente do que ele pensa e ainda tem relação com ele próprio (não vou dar spoiler).

Por tudo isso, Cidade de Vidro é denso e complexo, apesar de curto. É um livro que nos faz querer cada vez mais abandonar a preocupação com formas, explorar temas intrigantes, produzindo algo realmente autêntico, mesmo não agradando a todos. E, principalmente, nos dá uma lição em como evitar os clichês dos gêneros literários.

Leituras 2016 – #2 – Count Zero

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William Gibson é um autor bastante cultuado. E o principal motivo é o fato dele ter criado o gênero cyberpunk. Além disso, Gibson criou, ainda na década de 80, vários termos usados em ficção científica que mais tarde foram utilizados de verdade. Foi ele, por exemplo, que criou o termo “cyberspace”. Também criou a ideia da Matrix, que consiste em mundo virtual acessado por hackers, que ele chamava de cowboys.

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Tudo isso começou com um conto chamado “Burning Chrome” (que eu não li), mas que conta a história de dois hackers que querem impressionar uma garota. Em seguida veio o conto “Johnny Minemonic” (esse eu li na década de noventa na época que foi lançado o filme com Keanu Reeves), que conta a história de um cara que foi modificado cirurgicamente e recebeu uma unidade de memória em sua cabeça e ele trabalha guardando informações sigilosas para pessoas e grandes corporações que não podem mais confiar no cyberspaço.

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Em “Burning Chrome”, Gibson criou o Sprawl, uma megacidade que vai de Boston a Atlanta. Em “Johnny Minemonic”, Gibson nos apresenta a personagem Molly Millions.

 

Esses dois elementos são a base inicial para a Trilogia Sprawl, composta de três livros:

 

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Count Zero

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No final do ano passado eu li o Neuromancer e, agora, eu li o Count Zero.

Count Zero se passa 7 anos depois de Neuromancer, mas não tem uma ligação muito direta com os personagens e nem uma continuidade com a trama. Molly e Case, personagens centrais de Neuromancer são apenas citados em um momento do livro.

O tema central do livro gira em torno inteligências artificiais vivendo dentro da Matrix e são consideradas, às vezes, como deuses. É composto de três narrativas que apenas se encontram apenas na parte final do livro.

A primeira delas conta a história do Count Zero, apelido de Bobby Newmark, um hacker sem experiência, que testa um programa ilegal (uma espécie de droga virtual) que é dado a ele para acessar a Matrix. Count Zero quase morre, mas é salvo por uma imagem de uma moça que aparece para ele no cyberspaço.

A segunda conta a história de Turner, um mercenário que foi contratado para retirar um cientista de uma grande corporação. No mundo criado por Gibson, os empregados de uma empresa não podem mudar para uma empresa rival, ao menos que sejam resgatados por um mercenário. Turner acaba não conseguindo resgatar o cientista, mas sim a filha dele, que tem a capacidade de acessar a Matrix sem fazer uso de equipamento.

A terceira linha narrativa conta a história de Marly, uma especialista em arte e dona de galeria que é procurada por um homem chamado Virek para encontrar para ele o fabricante de umas pequenas caixas que estão relacionadas com biosoft.

 

Minhas impressões como leitor e escritor:

É fantástico ver como William Gibson criou toda essa linguagem em uma época onde não se tinha nenhuma referência sobre computação e redes como temos hoje. Além disso, ele criou um gênero totalmente novo, o cyberpunk e ditou a linguagem que muitos usam até o momento. A capacidade criativa dele deve ser respeitada por isso.

Porém, na minha opinião, a leitura é bem complexa. Eu achei o Count Zero um pouco mais fácil de ler e acompanhar do que o Neuromancer, apesar da quebra entre as três narrativas acabar contribuindo ainda mais para o entendimento.

Acho que Wiliam Gibson coloca muita informação nova de uma única vez e não contribui com descrições. Muitas vezes eu fiquei perdido, tentando entender onde os personagens estavam em determinada cena.

Count Zero é um daqueles livros que algumas vezes você tem que voltar algumas páginas para retomar o entendimento ou se situar novamente. Gibson não se preocupa muito em explicar detalhes sobre o universo criado por ele. Com o tempo é que as coisas passam a fazer mais sentido.

Eu não gosto quando em livros de ficção científica o autor faz grandes intervalos explicativos, tentando deixar claro para nós algo do universo criado, sendo que os personagens já estão familiarizados com isso. Mas Gibson não se preocupa em explicar quase nada dos novos termos que ele criou ou sobre como funciona as coisas no Sprawl. Até mesmo por isso os livros lançados pela editora Aleph vem com um glossário no final, explicando alguns termos e alguns conceitos.

Apesar de tudo isso, continua valendo muito a pena ler esse livro e a trilogia em si.

Mais uma vez, reforço que as coisas que William Gibson criou são fantásticas. Uma mente brilhante que é capaz de te surpreender, mesmo que você já tenha lido ou visto muito filme de ficção científica.