Categoria: resenha

Leituras 2016 – #4 – Mona Lisa Overdrive

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Terminei de ler a Trilogia Sprawl, do William Gibson.

Já falei um pouco sobre o autor, a trilogia e a importância para o gênero nesse post aqui quando escrevi sobre o Count Zero.

Mona Lisa Overdrive é o terceiro e último livro e se passa quinze anos após os acontecimentos do Neuromancer e oito anos depois do Count Zero. Ele tem uma relação muito mais direta com os outros dois livros e explora conceitos bem legais, misturando inteligências artificias com divindades, fantasmas e Alef.

No Mona Lisa Overdriver, Bobby Newmark, o Count Zero, está vivendo dentro da Matrix e o corpo dele (que está em uma espécie de coma) está sendo mantido por outras pessoas.

A Molly Millions também reaparece, usando um outro nome. A Angie, que é menina com implantes no cérebro do segundo livro, também faz parte da história e agora ela é uma atriz, celebridade na Simstim.

Mais uma vez, Gibson usa narrativas paralelas para construir o plot do seu livro.

Em uma delas, a filha de um chefão da Yakuza é mandada para Londres para evitar os riscos da guerra entre as máfias japonesas e ela acaba se envolvendo com Molly Millions.

A personagem que dá título a obra encabeça outra narrativa. Mona é uma prostituta que se parece fisicamente com Angie e acaba sendo usada em um plano para sequestrar a estrela da Sense/Net.

E em uma terceira narrativa, temos Slick Henry, que trabalha em uma espécie de ferro velho de máquinas e robôs e acaba sendo envolvido na manutenção do corpo de Count Zero.

A verdade é que se eu não tivesse ganho o box com a trilogia completa, talvez eu nunca tivesse lido esse livro.

Como falei antes, Neuromancer é um livro de difícil leitura, complexo na hora de entender algumas descrições e ruim de manter o foco. O segundo livro, Count Zero, é um pouco mais tranquilo de ler, mas, mesmo assim, não flui tão bem, deixando o leitor meio perdido.

Mas, na minha opinião, Mona Lisa Overdrive é o melhor livro da trilogia. A impressão que eu tenho é que William Gibson foi deixando a coisa cada vez mais cinematográfica, usando uma linguagem mais simples e direta para ambientar cenas e focando na relação dos personagens e nas ideias malucas. Achei as ideias explorando o cyberspaço ou Matrix ainda mais criativas nesse livro.

Acho que o autor se soltou mais e pôde criar algo melhor e mais acessível, mas ainda sim sem cair em clichês ou deixar sua obra menos marcante.

Sem dúvida, eu iria me arrepender se eu tivesse parado no Neuromancer.

Leituras 2016 – #3 – Cidade de Vidro

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Eu mantenho sempre uma lista de próximos livros que quero ler. Não necessariamente uma ordem fixa, mas coloco sempre algumas prioridades, seja por causa do gênero, do estilo, do ponto de vista ou do autor.

De vez em quando, eu acabo descobrindo algum livro interessante e acabo lendo antes de muitos outros que estão esperando sua vez.

Foi o que aconteceu com o livro Cidade de Vidro.

Eu descobri o livro de Paul Auster por acaso, lendo uma matéria sobre trilogias que me deixou muito curioso.

Paul Auster escreve histórias policiais, mas usando um estilo pós-moderno, repleto de absurdos, coincidências e adora uma metalinguagem, que deixa tudo ainda mais maluco ainda.

Cidade de Vidro é a primeira história que forma “A Trilogia de Nova York” e conta a história de Daniel Quinn, que também é um escritor de histórias policiais e recebe uma ligação por engano. A pessoa do outro lado da linha procura por um detetive particular. E aqui começa a doidera. O detetive particular se chama: Paul Auster.

E as maluquices não param mais. Não só na história, mas na própria construção da narrativa.

Paul Auster deu o seu nome para o personagem do livro, mas o livro não é em primeira pessoa, ou seja, não é narrado por esse Paul Auster, detetive particular.

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Daniel Quinn, o personagem principal, também escreve livros policiais e decide fingir que é Paul Auster, o detetive particular, para sentir na pele o que sempre escreveu.

O protagonista então começa a investigar uma trama enlouquecida da busca de um homem pelo paraíso, Torre de Babel, linguagem primal, etc. Essa parte da história é narrada usando muita a técnica de exposição. E tanto por esse estilo como pelo conteúdo, me lembrou muito as histórias de Borges, Lovecraft e Poe. Uma história misteriosa e intrigante, que ele vai tomando conhecimento por livros que ele pesquisa na biblioteca. Essa parte do mistério poderia render muito mais, mas Auster optou por apenas usar isso como um pano de fundo para toda a trama.

Para mim, o mais interessante do livro é que Paul Auster se prende a nenhum formato pré-definido, ficando até difícil de cataloga-lo como livro de mistério. Além disso, a questão de identidade é um tema que ele explora bem, desde a questão do personagem se passar por outra pessoa, depois descobrir que essa outra pessoa é diferente do que ele pensa e ainda tem relação com ele próprio (não vou dar spoiler).

Por tudo isso, Cidade de Vidro é denso e complexo, apesar de curto. É um livro que nos faz querer cada vez mais abandonar a preocupação com formas, explorar temas intrigantes, produzindo algo realmente autêntico, mesmo não agradando a todos. E, principalmente, nos dá uma lição em como evitar os clichês dos gêneros literários.