Participando do NaNoWriMo 2015

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O NaNoWriMo é um projeto criativo idealizado por Chris Baty, em 1999, para estimular as pessoas a escreverem livros. O nome é a abreviação de National Novel Writing Month (Mês Nacional de Escrever Livros) e basicamente explica o projeto: cada participante tem o objetivo de escrever, em um mês, a primeira versão de um livro, com mais de 50 mil palavras.

A primeira edição foi realizada no mês de julho, mas já na segunda edição passou a ser em novembro, por uma decisão baseada no clima no hemisfério norte, já que, segundo Baty, as pessoas estão mais propensas a ficar em casa e também não serão interrompidas pelos feriados de final de ano.  Talvez precisássemos adaptar a lógica para o Hemisfério sul e escolher um mês do nosso inverno, mas o que vale é o oficial, então novembro é o mês para se sentar e escrever.

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Eu tomei conhecimento do NaNoWriMo pelo livro que Chris Baty escreveu sobre o assunto: Not Plot? No Problem.

Na primeira metade do seu livro Baty conta como surgiu a ideia e as vantagens de escrever o primeiro draft de maneira muito rápida, sem pensar muito na história. O importante é ter um prazo e escrever sempre. No livro, ele inclusive recomenda que os participantes comecem sem planejamento algum. Quanto menos souber, melhor. Por isso o nome do livro.

Na segunda metade, Chris Baty faz uma guia diário/semanal da participação em um NaNoWriMo, então, quem tem vontade participar do evento, vale muito a pena.

Apesar de ter lido o livro, eu ainda não consegui participar. Sempre tinha alguma coisa acontecendo em novembro que eu sabia que iria me complicar para participar (claro que a maioria eram desculpas que eu inventei para mim mesmo, como sempre, óbvio). Mas, estimulado pelas ideias do livro, eu comecei a seguir o modelo e até fiz uma experiência e escrevi um primeiro draft em 30 dias, me forçando a escrever todos os dias (eu não segui a divisão baseada em todos os dias e escrevia mais nos finais de semana e menos no dia de semana por motivos de trabalho).

Na minha opinião, um dos grandes benefícios do projeto é justamente fazer você se obrigar a escrever todos os dias (ou quase todos os dias). Isso ajuda a criar um hábito. Depois que você se acostuma, não parece tão difícil escrever todos os dias um número grande de palavras.

Outro grande benefício é você desenvolver uma história até o final ou chegar perto dele, pelo menos. Às vezes não sabemos se uma história vale a pena e desistimos quando estamos no início, sem saber que depois ela pode tomar outros rumos e ficar muito melhor.

É evidente que você não terá um livro pronto quando completar as 50 mil palavras, mas você terá lago para trabalhar em cima e aprimorar. Esse também é uma das vantagens do projeto.

Claro que existem várias pessoas que criticam o NaNoWriMo, dizendo que produzir 50 mil palavras não significa produzir um livro. Mas, para mim, isso é muito óbvio. Por isso, acho que, apesar dos pontos negativos do NaNo, tudo que faça uma pessoa escrever mais merece crédito e respeito.

Então, fica apenas uma dica: se você acha que no final de novembro você terá um livro pronto, não participe. Isso não é verdade. Existe um longo trabalho pela frente. No próprio livro, Chris Baty afirma que depois dos 30 dias e das 50 mil palavras, o trabalho de reestruturar e reescrever ainda leva mais alguns meses. Ou seja, ele não está enganando ninguém. O problema é que algumas pessoas gostam de se enganar.

Esse ano eu decidi participar, então, no dia primeiro de novembro, começarei a escrever mais um livro. Eu tenho algumas ideias para algumas histórias e ainda não decidi qual delas vou usar para o projeto. Talvez eu siga mais uma vez a recomendação de Chris Baty e use a ideia que eu menos pensei a respeito. Assim vou descobrindo tudo sobre ela ao longo desses 30 dias.

Além de escrever a minha média de 1667 palavras por dia, vou tentar escrever alguns textos sobre o processo e publicar aqui. Espero conseguir tempo para tudo.

Boa sorte para todos que irão participar.

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Jo Nesbø, o Boneco de Neve e a Pesquisa

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Recentemente eu li o livro Boneco de Neve, do norueguês Jo Nesbø. Que na verdade é o sétimo livro da série policial que tem Harry Hole como protagonista.

Não vou copiar aqui a sinopse e nem fazer uma resenha. Já existem várias na internet. Uma que achei boa é a do blog Psychobooks.

Já tinha lido algumas críticas aos vários clichês de literatura policial que o autor usa, mas não acho que seja algo que atrapalhe. Policial com vícios e problema de relacionamento existem vários mesmo, mas o que prevalece é a trama toda. E acho que o Jo Nesbø constrói muito bem a história e o mistério.

O ponto que me incomodou um pouco e gostaria de comentar é a pesquisa toda que o autor fez e acabou usando na sua obra.

Em vários momentos do livro, Jo Nesbø acabou exagerando ao colocar pesquisa na narrativa. É claro que toda a informação médica sobre a doença que envolve os personagens é importante para a trama e foi bem usada (apesar de eu ainda sentir um pouco forçado em alguns momentos ). Mas certas informações acabam sendo tão desnecessária que acabam nos tirando da história e nos colocando em uma palestra.

Apenas um exemplo para não estragar a leitura de ninguém: a informação de quem foi o inventor da bomba de gás lacrimogênio, além de detalhes do seu funcionamento.

Por que o Jo Nesbø achou que a gente precisava saber disso?

Para mim, esse tipo de informação que não acrescenta nada à história ou ao personagem, acaba quebrando o ritmo da obra.

Acredito que alguns autores, depois que tanto pesquisar sobre os assuntos que estarão dentro dos seus livros, sentem a necessidade de usar todo o conteúdo que achou interessante. E, na verdade, temos que saber o que relamente é importante para a história e nos desapegar de detalhes que, por mais curiosos e interessantes que possamos acha-los, não ficarão interessantes naquele momento da narrativa.

MAs, independente desses exageros de informações (e descrições como a Mari e a Alba do Psychobooks colocaram muito bem), Boneco de Neve continua sendo uma boa indicação para quem gosta de um bom livro policial.

Sempre difícil, sempre

Hemingway já dizia: “The first draft of anything is shit”. Ou seja, a primeira versão de qualquer coisa é uma porcaria.

A frase de Hemingway me dá duas lições:

1. Não se importe com o que você escreveu. Reescreva, edite, corte e jogue fora. A segunda versão sempre será melhor.

2. Não pense demais para colocar as primeiras palavras no papel, elas não valem nada, ainda. Só passarão a ter valor depois que você voltar a elas e reescrevê-las.

Tenho que me lembrar sempre disso.

Mas não é fácil.

Somos sempre levados a nos apegar ao que produzimos. E, principalmente em produção de textos, o ato de registrar frases e pensamentos em uma folha de papel é tão difícil, que achamos que aquilo vale ouro, que não deve ser desperdiçado. Antes mesmo de começarmos já achamos que o que vai aparecer escrito naquele papel em branco precisa ser perfeito, assim, de imediato.

Mesmo tendo escrito livros inteiros, sempre que preciso começar um novo trabalho, por menor que seja, acabo caindo nessa armadilha. Então, tenho que lembrar de Hemingway e saber que aquele início não é nada, mas pode virar tudo. Só depende de trabalho duro.

 

 

Fórmula ou Método para escrever

Diagrama da Jornada do Herói

Recentemente eu estava lendo vários textos sobre a Jornada do Herói e a estrutura em três atos. Como essa matéria aqui, de onde eu tirei esse diagrama do post.

Mas, ontem, eu comecei a ler um livro em que o autor defende que a estrutura em 3 atos é uma fórmula e, como toda boa fórmula, produz sempre o mesmo resultado. O autor então defende o uso de um método, que ele criou.

O método é interessante, pois coloca uma atenção não apenas no protagonista, mas também nos cenários, nos objetos, nas simbologias, nas tramas secundárias e também nos personagens coadjuvantes.

Ainda não terminei de ver todo o método, mas me parece interessante. Mesmo que não use da forma que está descrito no livro, com certeza vale como referência para construir histórias melhores.

O principal argumento: conflito.

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Para mim, existem duas coisas bem distintas na hora de escrever um livro. O argumento para o livro e a história propriamente dita.

O argumento é o que acontece. É a ideia.

A história é como você conta o que acontece.

Você pode narrar eventos e cenas em uma ordem que não seja necessariamente na ordem que aconteceu. Você pode usar flashbacks, você pode começar no meio, voltar e depois ir para a frente até o final do livro. Você pode começar pelo final e contar como tudo chegou àquele ponto. Além de várias outras formas.

Contar uma história é entender como colocar os eventos em uma certa ordem, de forma que deixem a coisa toda mais interessante. Esse é o segredo dos bons contadores de história, afinal, dependendo da ordem dos eventos ele pode despertar a curiosidade do leitor ou deixar tudo muito sem graça. Pode fazer o leitor se empolgar ou se entediar.

O argumento é muito importante, pois é ele que geralmente faz as pessoas se interessarem por uma história. Mas a sequência de eventos é o que faz o leitor ir até o final e gostar, ou não, da história.

O argumento geralmente retrata uma luta do personagem. É o que coloca a história em movimento. O conflito, interno ou externo, que faz o protagonista tomar uma atitude.

Os eventos contarão como ele buscou resolver este conflito, transformando–se em uma pessoa diferente no final.

Não podemos esquecer que os eventos são importantes, mas eles precisam estar relacionados com essa busca por transformação do personagem. Não adianta ter vários eventos interessantes, em cenas incríveis, se eles não estiverem relacionados com o conflito do protagonista.

Uma história só vale a pena ser contada se os eventos que acontecem geram dificuldades para os personagens.

A história é a luta para enfrentar essa dificuldades.

A história não é o conjunto de eventos ou cenas. História é o conflito gerado.

Estrutura em 3 atos

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Falando sobre planejar, ou não, a história antes de escrever (post anterior), fiquei pensando sobre a questão de estrutura. Porque no fundo é a estrutura que acaba sendo melhor trabalhada quando se planeja ou quando se reescreve.

Digo isso porque existem contadores de histórias natos. Aquelas pessoas que quando já pensam em uma história, já pensam no conflito do personagem, no dilema, na busca por superação, por uma queda no meio do caminho, na recuperação e na grande transformação no final.

Mas muitos de nós, simples mortais, só conseguimos pensar nisso com certa disciplina e planejamento. E é aí que entra a questão do outline.

Se eu escrevo um livro inteiro sem planejar, quando chego no final, tenho que voltar e ver se a estrutura está realmente interessante. Se tem os pontos principais que farão a história funcionar e as pessoas gostarem da minha história.

Fazendo um outline prévio, eu posso pensar em tudo isso antes de começar a escrever todas as cenas. Inclusive, posso incluir cenas que irão contar melhor determinada parte da história ou completar a estrutura em 3 ATOS da minha história.

A estrutura de 3 ATOS é basicamente representado por um diagrama em forma de W.

1º ATO:

Apresenta os personagens principais e o ambiente em que estão inseridos.

Geralmente o protagonista tem uma falsa crença sobre algo e logo é envolvido em um incidente que irá mudar sua vida e impulsionar a história. Acontece um fato que irá fazer o protagonista chegar no primeiro ponto sem volta.

Nesse ponto, ele é obrigado a tomar a uma atitude para resolver o conflito.

Sendo assim, devemos procurar iniciar uma história nesse fato, que faz tudo ser diferente. Um fato que mudou a vida do protagonista e o deixou com a missão de se transformar e solucionar o problema.

 

2º ATO:

Esse é o ato mais longo e onde a história se desenvolve.

É aqui que o protagonista vai agir. Ele vai aprender coisas novas sobre o seu problema e achar que pode conseguir superá–lo, mas na verdade ele vai descobrir que deixou o problema ainda pior.

É no segundo ato que aquele protagonista de um romance decide fazer as pazes com a sua amada e descobre que ela já encontrou outro ou descobriu um segredo dele ainda pior. Ou é nesse ato que o protagonista de um thriller consegue o dinheiro que precisava para ajudar o seu pai, mas descobre que a dívida ficou ainda maior. Ou ele recupera o emprego perdido, mas descobre que está sendo usado pelo seu chefe para um golpe que vai colocar ele na cadeia.

Deu para entender a lógica, não é? O protagonista tenta fazer a coisa certa e deixa as coisas piores. Até que ele chega no segundo ponto sem volta. Que é quando ele descobre o que realmente precisa ser feito, que é tudo ou nada. Descobre que precisa fazer o sacrifício final.

Na realidade, ele descobre que precisa se transformar para vencer todos os conflitos.

 

3º ATO:

O protagonista, já transformado, toma a atitude que precisava para enfrentar tudo e todos.

No final a transformação é evidente e o clímax é a solução do conflito.

 

Se você reparar, a maioria das histórias, seja em filme ou em livros, segue essa estrutura, com algumas variações de acordo com gênero e narrativa. Algumas vezes mais evidentes e outras mais sutis. Mas, quase sempre, a fórmula é essa. E, se planejar ou reescrever, quase sempre dá certo.

Outline: planejar ou não planejar?


(outline esquemático de J. K. Rowling para o Harry Potter)

Uma das coisas que sempre me bloquearam na hora de escrever era o processo de criação de um história. Eu não conseguia pensar em uma história completa para um livro, com todos os detalhes, personagens e tramas. Então, eu não conseguia começar a escrever. E por isso, também preferia escrever contos.

Quando eu ficava sabendo que certos autores escrevem sem ter nada planejado, eu achava impossível.

Como assim, alguém começa a escrever um livro e nao sabe como a história irá se desenrolar e muito menos como vai acabar?

Lendo sobre o assunto, descobri que existem vários autores que planejam seus livros inteiros. Ou seja, fazem um outline da história e só depois começam a escrever cena a cena, capitulo a capítulo.

E existem aqueles que simplesmente começam com um personagem ou uma situação e vão descobrindo a história conforme vão escrevendo.

É claro que existem também aqueles que usam um meio termo. Aqueles que planejam algumas partes ou começam sabendo apenas aonde querem chegar, mas não os detalhes do trajeto.

Eu sempre consegui escrever contos, porque conseguia ter a história toda na cabeça. Um outline mental. O que eu não conseguia fazer com um livro.

Agora, já escrevi sem outline, descobrindo a historia durante o processo, e também já escrevi um livro onde eu ia planejando conforme ia escrevendo, mas nao sabia qual seria o final, e outro em que eu consegui fazer um outline, mas não completo.

Ainda quero ter a experiência de criar um outline completo, para tirar a prova do que é melhor para mim.

Mas posso dizer que acredito que o tempo que se perde reesecrevendo uma história não planejada é muito maior. Em compensação, com outline se perde mais tempo antes de escrever, mas quando começa já sabe que tera um livro.

O autor Joseph Finder, por exemplo, sempre escreveu com outline, mas no seu último livro, Power Play, ele decidiu experimentar escrever sem e levou 7 meses a mais do que o normal para acabar.

Garth Nix faz um outline que é uma simples dos capítulos que ele tem que escrever. O resto ele guarda na memória.


(outline de capítulos do livro Sabriel, de Garth Nix)

James Patterson gosta de fazer outlines detalhados que chegam a ter mais de 100 páginas.

John Grisham diz que não consegue escrever sem fazer um outline, geralmente de 50 páginas, com um parágrafo ou dois para cada capítulo. E ele gasta mais tempo escrevendo o outline do que o livro em si.

Robert Ludlum também faz outlines de 100 ou 150 páginas.

A escritora J. K. Rowling usou uma tabela para marcar cada ponto importante de cada capítulo de Harry Potter.

Não existe processo melhor ou pior. Cada escritor deve encontrar a forma que prefere trabalhar.