Mês: abril 2015

O principal argumento: conflito.

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Para mim, existem duas coisas bem distintas na hora de escrever um livro. O argumento para o livro e a história propriamente dita.

O argumento é o que acontece. É a ideia.

A história é como você conta o que acontece.

Você pode narrar eventos e cenas em uma ordem que não seja necessariamente na ordem que aconteceu. Você pode usar flashbacks, você pode começar no meio, voltar e depois ir para a frente até o final do livro. Você pode começar pelo final e contar como tudo chegou àquele ponto. Além de várias outras formas.

Contar uma história é entender como colocar os eventos em uma certa ordem, de forma que deixem a coisa toda mais interessante. Esse é o segredo dos bons contadores de história, afinal, dependendo da ordem dos eventos ele pode despertar a curiosidade do leitor ou deixar tudo muito sem graça. Pode fazer o leitor se empolgar ou se entediar.

O argumento é muito importante, pois é ele que geralmente faz as pessoas se interessarem por uma história. Mas a sequência de eventos é o que faz o leitor ir até o final e gostar, ou não, da história.

O argumento geralmente retrata uma luta do personagem. É o que coloca a história em movimento. O conflito, interno ou externo, que faz o protagonista tomar uma atitude.

Os eventos contarão como ele buscou resolver este conflito, transformando–se em uma pessoa diferente no final.

Não podemos esquecer que os eventos são importantes, mas eles precisam estar relacionados com essa busca por transformação do personagem. Não adianta ter vários eventos interessantes, em cenas incríveis, se eles não estiverem relacionados com o conflito do protagonista.

Uma história só vale a pena ser contada se os eventos que acontecem geram dificuldades para os personagens.

A história é a luta para enfrentar essa dificuldades.

A história não é o conjunto de eventos ou cenas. História é o conflito gerado.

Estrutura em 3 atos

3atos

Falando sobre planejar, ou não, a história antes de escrever (post anterior), fiquei pensando sobre a questão de estrutura. Porque no fundo é a estrutura que acaba sendo melhor trabalhada quando se planeja ou quando se reescreve.

Digo isso porque existem contadores de histórias natos. Aquelas pessoas que quando já pensam em uma história, já pensam no conflito do personagem, no dilema, na busca por superação, por uma queda no meio do caminho, na recuperação e na grande transformação no final.

Mas muitos de nós, simples mortais, só conseguimos pensar nisso com certa disciplina e planejamento. E é aí que entra a questão do outline.

Se eu escrevo um livro inteiro sem planejar, quando chego no final, tenho que voltar e ver se a estrutura está realmente interessante. Se tem os pontos principais que farão a história funcionar e as pessoas gostarem da minha história.

Fazendo um outline prévio, eu posso pensar em tudo isso antes de começar a escrever todas as cenas. Inclusive, posso incluir cenas que irão contar melhor determinada parte da história ou completar a estrutura em 3 ATOS da minha história.

A estrutura de 3 ATOS é basicamente representado por um diagrama em forma de W.

1º ATO:

Apresenta os personagens principais e o ambiente em que estão inseridos.

Geralmente o protagonista tem uma falsa crença sobre algo e logo é envolvido em um incidente que irá mudar sua vida e impulsionar a história. Acontece um fato que irá fazer o protagonista chegar no primeiro ponto sem volta.

Nesse ponto, ele é obrigado a tomar a uma atitude para resolver o conflito.

Sendo assim, devemos procurar iniciar uma história nesse fato, que faz tudo ser diferente. Um fato que mudou a vida do protagonista e o deixou com a missão de se transformar e solucionar o problema.

 

2º ATO:

Esse é o ato mais longo e onde a história se desenvolve.

É aqui que o protagonista vai agir. Ele vai aprender coisas novas sobre o seu problema e achar que pode conseguir superá–lo, mas na verdade ele vai descobrir que deixou o problema ainda pior.

É no segundo ato que aquele protagonista de um romance decide fazer as pazes com a sua amada e descobre que ela já encontrou outro ou descobriu um segredo dele ainda pior. Ou é nesse ato que o protagonista de um thriller consegue o dinheiro que precisava para ajudar o seu pai, mas descobre que a dívida ficou ainda maior. Ou ele recupera o emprego perdido, mas descobre que está sendo usado pelo seu chefe para um golpe que vai colocar ele na cadeia.

Deu para entender a lógica, não é? O protagonista tenta fazer a coisa certa e deixa as coisas piores. Até que ele chega no segundo ponto sem volta. Que é quando ele descobre o que realmente precisa ser feito, que é tudo ou nada. Descobre que precisa fazer o sacrifício final.

Na realidade, ele descobre que precisa se transformar para vencer todos os conflitos.

 

3º ATO:

O protagonista, já transformado, toma a atitude que precisava para enfrentar tudo e todos.

No final a transformação é evidente e o clímax é a solução do conflito.

 

Se você reparar, a maioria das histórias, seja em filme ou em livros, segue essa estrutura, com algumas variações de acordo com gênero e narrativa. Algumas vezes mais evidentes e outras mais sutis. Mas, quase sempre, a fórmula é essa. E, se planejar ou reescrever, quase sempre dá certo.

Outline: planejar ou não planejar?


(outline esquemático de J. K. Rowling para o Harry Potter)

Uma das coisas que sempre me bloquearam na hora de escrever era o processo de criação de um história. Eu não conseguia pensar em uma história completa para um livro, com todos os detalhes, personagens e tramas. Então, eu não conseguia começar a escrever. E por isso, também preferia escrever contos.

Quando eu ficava sabendo que certos autores escrevem sem ter nada planejado, eu achava impossível.

Como assim, alguém começa a escrever um livro e nao sabe como a história irá se desenrolar e muito menos como vai acabar?

Lendo sobre o assunto, descobri que existem vários autores que planejam seus livros inteiros. Ou seja, fazem um outline da história e só depois começam a escrever cena a cena, capitulo a capítulo.

E existem aqueles que simplesmente começam com um personagem ou uma situação e vão descobrindo a história conforme vão escrevendo.

É claro que existem também aqueles que usam um meio termo. Aqueles que planejam algumas partes ou começam sabendo apenas aonde querem chegar, mas não os detalhes do trajeto.

Eu sempre consegui escrever contos, porque conseguia ter a história toda na cabeça. Um outline mental. O que eu não conseguia fazer com um livro.

Agora, já escrevi sem outline, descobrindo a historia durante o processo, e também já escrevi um livro onde eu ia planejando conforme ia escrevendo, mas nao sabia qual seria o final, e outro em que eu consegui fazer um outline, mas não completo.

Ainda quero ter a experiência de criar um outline completo, para tirar a prova do que é melhor para mim.

Mas posso dizer que acredito que o tempo que se perde reesecrevendo uma história não planejada é muito maior. Em compensação, com outline se perde mais tempo antes de escrever, mas quando começa já sabe que tera um livro.

O autor Joseph Finder, por exemplo, sempre escreveu com outline, mas no seu último livro, Power Play, ele decidiu experimentar escrever sem e levou 7 meses a mais do que o normal para acabar.

Garth Nix faz um outline que é uma simples dos capítulos que ele tem que escrever. O resto ele guarda na memória.


(outline de capítulos do livro Sabriel, de Garth Nix)

James Patterson gosta de fazer outlines detalhados que chegam a ter mais de 100 páginas.

John Grisham diz que não consegue escrever sem fazer um outline, geralmente de 50 páginas, com um parágrafo ou dois para cada capítulo. E ele gasta mais tempo escrevendo o outline do que o livro em si.

Robert Ludlum também faz outlines de 100 ou 150 páginas.

A escritora J. K. Rowling usou uma tabela para marcar cada ponto importante de cada capítulo de Harry Potter.

Não existe processo melhor ou pior. Cada escritor deve encontrar a forma que prefere trabalhar.

Livro em primeira pessoa: uma questão de ponto de vista

livros

Como comentei no post anterior, não desisti do livro que estou escrevendo e hoje voltei a trabalhar nele. Mas me lembrei que o primeiro motivo que me fez pensar em desistir dele foi a escolha do ponto de vista.

Na primeira versão, eu escrevi a história inteira em primeira pessoa. E a maioria das coisas que eu escrevo e grande parte dos livros que eu leio são em terceira pessoa.

Mas alguns dos meus livros favoritos são em primeira pessoa. Entre eles Psicopata Americano e Monstros Invisíveis. Então eu resolvi fazer uma experiência de também escrever tem primeira pessoa.

O livro que eu estou escrevendo não precisa, obrigatoriamente, ser escrito em primeira pessoa, foi apenas uma questão de escolha. E já quando eu comecei, não tinha tanta certeza que seria a melhor forma de contar a história.

Em literatura, existem diferentes pontos de vista de narração e a escolha faz toda diferença.

 

Os três tipos mais comuns de pontos de vista são:

– Primeira pessoa: um personagem que faz parte da ação está contando a história, geralmente o protagonista. Dessa forma, só sabemos o que o personagem sabe e é dele a percepção que temos de tudo que acontece na história. Esse tipo de ponto de vista é muito usado em livros policiais e de detetives, para acompanharmos a investigação e descobrirmos junto com o personagem o desfecho do caso. Mas também é usado em casos como o Clube da Luta, também do Chuck Palahniuk, onde realmente precisamos ter apenas a visão de um personagem, afinal, se tivéssemos a percepção dos outros personagens, a história não poderia ser contada.

– Terceira pessoa simples: um narrador que não participa da ação conta a história acompanhando um personagem, mas conta apenas o que esse personagem vivencia. É como se tivéssemos uma câmera acompanhando um personagem da história. Não ficamos indo para todos os lugares e não sabemos o que acontece em situações onde esse personagem não está presente. (Esse é o ponto de vista do meu livro Outra Pessoa, onde acompanhamos Olavo e só sabemos o que ele sabe)

– Terceira pessoa múltipla ou onisciente: o narrador não participa da ação e acompanha vários personagens, variando ao longo das cenas. Nesse caso, a “câmera” acompanha qualquer personagem, em qualquer ação e em qualquer cenário que seja necessário para contar a história.

 

Precisamos avaliar o que é o melhor para contar a história.

No meu caso específico, desse livro em particular, apenas descobri que eu não gostei do resultado final. Então, ao invés de abandona-lo, resolvi reescrever em terceira pessoa simples. Ainda assim, enquanto escrevia a terceira versão, fiquei na dúvida se a terceira pessoa múltipla não teria sido uma melhor escolha para contar a história. (Enquanto não terminar, vou sempre ter várias dúvidas)

Mas, agora na quarta versão, finalmente fiz as pazes com o meu livro. Consegui resolver alguns problemas de narrativa, inclui algumas cenas, criei um ou dois personagens novos e, assim, defini que ele será em terceira pessoa simples.

E continuo sem planos de desistir dele.

3 razões para não desistir de escrever

scott

 

Eu estou escrevendo um livro há um bom tempo. Já estou na quarta versão e, mais uma vez, eu pensei em desistir dele.

Basicamente, fico dividido entre dois pensamentos: “já coloquei tanto tempo nessa história, uma hora ela vai funcionar” “estou perdendo tempo demais com essa história, poderia escrever outras coisas”.

Como vocês podem ver, a questão que me incomoda é o tempo.

Para mim, o tempo que se leva para escrever um livro sempre foi determinante na hora de começar a escrever.

“Será que vai valer a pena? E se chegar no final e eu só descobrir que perdi tempo?”

Já consegui superar esse problema de não começar as coisas. Não penso muito se vai valer a pena escrever alguma história, porque, de verdade, acho que escrever sempre vale a pena. Mas agora o tempo (ou a falta dele) tem feito eu pensar seriamente em desistir.

Em uma das vezes em que pensei em desistir de escrever esse livro, eu li uma entrevista do Scott Westerfeld, em que ele dá umas dicas para escrever livros e a primeira delas é a que ilustra esse post.

Essa entrevista me ajudou a não desistir e eu consegui terminar a segunda versão do livro e continuar até a versão atual.

Mas como a vontade de desistir voltou, resolvi fazer uma pequena lista dos motivos para não desistir. Coisas que eu tenho que lembrar todas as vezes que penso em jogar esse livro na lixeira.

 

1. Pratique terminar: como Scott Westerfeld disse, termine, nem que seja como uma forma de exercício. Torne–se bom em terminar livros. É fácil falar “estou escrevendo um livro” ou “comecei a escrever um livro”, mas são poucos os que podem dizer “escrevi um livro”.

2. Escrever significa reescrever: não fique descontente com o que você tem até o momento, você pode sempre consertar a história e deixá–la melhor.

3. Terminar motiva: o sentimento de dever cumprido te faz querer repetir a dose e isso lhe dará outros livros, novas histórias.

 

Talvez eu passe mais um bom tempo reescrevendo esse livro, mas não vou desistir.

Quando terminar, eu aviso.