Mês: março 2015

Lacuna: uma biblioteca feita de livros

Fonte: http://www.projectlacuna.com

O Bay Area Book Festival, que acontece nos dias 6 e 7 de junho, em Berkeley, poderá receber uma biblioteca feita de 50 mil livros.

O projeto chama-se Lacuna e foi criado pela Flux Foundation, um grupo sem fins lucrativos que desenvolve projetos de arte pública. Eles estão tentando levantar a verba no Kickstarter.

Segundo a ideia do projeto, os participantes poderão retirar livros das paredes enquanto visitam a instalação e, dessa forma, fazer a biblioteca ir se transformando, com mudança na iluminação e na acústica da instalação.

Os 50 mil livros utilizados para construir a Lacuna serão doados pela Internet Archive. O acesso será gratuito e todos os livros removidos pelos participantes do festival poderão ser levados para casa sem custo algum.

Eu bem que gostaria de estar lá para poder levar pelo menos uma parede dessas de livros para casa.

Se quiser conhecer mais detalhes, basta entrar no site do projeto aqui.

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Nick Cave e o livro escrito em sacos de vômito

Fonte: Pitchfork

Nick Cave está lançando um novo livro, escrito inteirinho em sacos de vômito de companhias aéreas.

É isso mesmo. Nick usava os pequenos saquinhos como caderno enquanto viajava com sua banda The Bad Seeds, na turnê de 2014. O livro tem o sugestivo nome de The Sick Bag Song. Uma edição especial contará com um saco de vômito de verdade, customizado por Nick Cave com anotações, desenhos e letras, dois LPs com Nick Cave lendo o livro, além do próprio livro em duas versões: capa dura e capa simples.

No caso de Nick Cave, a mídia utilizada acabou sendo levada para o livro final, mas cada autor tem o seu jeito preferido de escrever. Enquanto o comum é se pensar em escrever em um computador, muitos ainda preferem meios mais tradicionais para contar suas histórias. Segundo alguns autores, a facilidade que o computador oferece em deletar e voltar em parágrafos anteriores acaba fazendo o lado crítico do seu cérebro entrar sempre em ação, o que é ruim no início do processo criativo. A maioria defende que não se deve ficar voltando para revisar o que se escreve. Pensando dessa forma, a escolha de Nick Cave em usar dacos de vômito foi acertada.

Acho interessante saber como os grandes autores escrevem suas histórias.

Alguns exemplos:

Vladimir Nabokov: ele não tinha toda a tecnologia disponível na época, mas o curioso é que ele escrevia seus livros em cartões (index cards), o que deixava de cortar ou mudar cenas de ordens. Outro fato curioso é que ele preferia escrever de pé.

Truman Capote: fazia o oposto, preferia escrever deitado, fumando um cigarro e tomando café. As duas primeiras versões do seus livros ele escrevia inteiramente a lápis e só passava para a máquina de escrever quando começava a reescrever a terceira versão.

Quentin Tarantino: escreve seus roteiros à caneta. Quando vai começar um novo trabalho, passa na livraria e compra um caderno e algumas canetas novas, como parte do ritual.

George R.R. Martin: o autor de Game of Thrones escreve em um antigo processador de texto, que roda o WordStar 4.0.

Neil Gaiman: assim como Capote, escreve as duas primeiras versões dos seus livros a mão, depois passa para o computador. O curioso é que faz isso para livros, mas quando vai escrever um roteiro, ele prefere já começar no computador.

Trecho de Deuses Americanos, do Neil Gaiman – Fonte: www.neilgaiman.com

Eu escrevo 99% no computador. Faço algumas anotações em qualquer coisa que estiver ao meu alcance: celular, post-it, bloco de notas. Mas escrever mesmo à mão só em alguns momentos bem específicos.

Quando eu estava escrevendo a primeira versão do meu primeiro livro, Outra Pessoa, cheguei a escrever uma parte à mão para fazer uma experiência.

Eu estava viajando e decidi escrever uma parte do livro durante o voo. Como vocês podem ver nas imagens.

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O interessante é que eu percebi que as coisas realmente mudam quando escrevo à mão. A escrita é mais lenta e a falta de possibilidade de deletar e reescrever a última palavra realmente te força a deixar para pensar nos ajustes mais tarde, quando passar para o computador.

Mas o mais interessante é que, de alguma forma, isso faz mudar um pouco o estilo da escrita também. É mais ou menos como no livro A Metade Negra, do Stephen King, onde o pseudônimo de um autor famoso ganha vida. Nessa história, o autor escrevia os seus livros à máquina e os livros do pseudônimo à mão, com estilos completamente diferentes.

Acho que isso aconteceu um pouco comigo. Talvez por isso, ou simplesmente coincidência, o trecho que eu escrevi a mão acabou sendo eliminada do livro quando o reescrevi pela terceira vez.

Independente de ser em computador, em papel ou em saco de vômito, como o Nick Cave, o importante é escrever sempre e contar suas histórias.

O único jeito de começar

Jodi Picoult

Você pode ler sobre como escrever, estudar escrita, falar em escrever, pensar em escrever, mas só tem um jeito de escrever: escrevendo.

Parece uma afirmação idiota, mas não é.

Por muito tempo eu fiz isso. Li, estudei, falei, pensei e planejei escrever. E toda vez que eu tentava escrever, achava que ainda não estava “pronto”, ou que tinha que esperar uma grande ideia aparecer.

Eu começava a escrever e já na segunda linha, voltava para analisar a primeira. Quase sempre chegando à mesma conclusão: “Isso não está bom.”

Tentava reescrever, mas desistia em seguida. Não conseguia encontrar a primeira frase perfeita, então não passava para a segunda e o texto morria.

Hoje, pelo menos, eu sei que a primeira frase não precisa ser perfeita. Nem ela, nem nenhuma outra. Não naquele momento. Aprendi que não devo me preocupar nessa fase da escrita.

A primeira linha que eu escrevo muito provavelmente nem estará na versão final. O primeiro parágrafo será bem diferente quando eu for reescrever o texto pela segunda, terceira ou quarta vez.

O maior bloqueio que um escritor pode ter é achar que as primeiras palavras que ele coloca no papel já têm que fazer sentido e serem algo incrível. O lado crítico entra em ação e insiste em dizer que não está bom.

O fato é que, no começo, não precisa mesmo estar bom. E isso é libertador.

Eu costumo chamar a primeira versão de um texto de “produção de matéria prima”. A analogia é simples. Um escultor não começa a fazer uma escultura sem sua matéria prima. Ele pega um bolo disforme de argila e começa a trabalhar, transformando em algo visualmente interessante. Ele faz e desfaz até chegar ao ponto que dá por finalizada sua obra.

A matéria prima do escritor não é uma página em branco e sim as palavras que ele coloca nela, mesmo que no começo elas não façam muito sentido e não tenham uma ideia totalmente definida. As páginas cheias de palavras são a argila. Podemos trocar palavras aqui, acrescentar algumas ali, remover frases inteiras, apagar adjetivos desnecessários, melhorar toda e qualquer estrutura. Podemos mexer e mexer até julgar que está pronto.

A grande magia de escrever é que nada é definitivo até ser impresso ou publicado. No momento que você entende isso, você se liberta.

Esse post é um bom exemplo disso.

Quando comecei a escrever, fiquei na dúvida se conseguiria (sempre começo com essa dúvida e acho que isso nunca vai mudar). Mesmo assim escrevi, porque sabia que eu voltaria algumas vezes e consertaria o que achasse necessário.

Ainda não acho que esteja perfeito, mas preciso começar esse blog. E um blog só se começa de um jeito: publicando o que se escreveu.