Os 6 passos do meu novo processo de escrita

Como eu falei no meu post anterior, durante a reescrita final do “Querendo Ser Elvis” eu comecei a pensar em mudar meu processo de escrita. Ou pelo menos testar um método diferente.

E resolvi já testar com o meu próximo livro, que estou escrevendo no momento.

O fato principal que levou a essa mudança foi notar que, depois que os capítulos estavam todos escritos (bem próximos da versão final), ficava mais difícil eu alterar alguma coisa. Isso acontece porque é difícil desapegar de algo que você julga que está pronto, mas também porque qualquer mudança que se faz nesse estágio gera uma série de ajustes em diferentes partes da estrutura do livro e até mesmo na história em si.

Percebi que seria melhor se eu tivesse feito uma análise da história, antes dela estar totalmente escrita. Mas, para isso, eu precisaria ter os detalhes da trama mais bem definidos. Ou seja, ter um planejamento ou um outline, que para mim é um problema porque eu não tenho o hábito de planejar meus livros. Meu processo normal é sair escrevendo para descobrir a história.

De qualquer forma, ainda estou em fase de experiência desse novo jeito de construir a história e só no futuro poderei dizer se valeu a pena.

Mas já vou detalhar um pouco os passos do processo:

1 – Criar o plot e desenvolver personagens

Nesse caso, eu já tinha um primeiro draft escrito, com aproximadamente 80 mil palavras. Escrevi ele no meu jeito antigo, ou seja, já com cara de livro, cheio de diálogos e descrições, etc.

Mas ele serviu basicamente para conhecer os personagens e saber como eles se desenvolvem na trama.

(Talvez no próximo livro eu não escreva um draft tão bem acabado já no início. Principalmente sabendo que vou jogar ele fora em seguida.)

2 – Análise da estrutura, dos personagens e do plot

No meu processo antigo, depois do primeiro draft, eu faria uma análise de cada capítulo e da história em geral (que estaria “quase pronta”) e reescreveria a partir dessas 80 mil palavras, aproveitando a sua maioria.

Mas agora eu passei a fazer diferente.

Fiz uma análise mais profunda e com mais desapego, me antecipando aos erros que eu poderia estar cometendo nessa história em relação a conflitos, caracterização de personagens, cenas, ritmo, ponto de vista, etc.

Depois, fiz uma lista do que eu gostava e sentia que estava funcionando na história, e fiz outra lista com as coisas que me incomodavam e que eu achava que estavam sobrando, ou estavam forçadas, ou não estavam agregando ao plot.

3 – Redefinição da história

Com base em toda a análise, redefini o plot, reavaliei os personagens e suas motivações, criei novos subplots, adequei ritmo, etc.

Nessa fase, anotei a essência de cada capítulo, escrevendo um parágrafo sobre cada um, explicando para mim mesmo o papel daquela cena no livro.

4 – Criar o outline (ou reescrever o outline)

Nesse ponto, abandonei totalmente as 80 mil palavras já escritas e comecei a escrever do zero, mas sem me preocupar ainda em formatar um texto final. Fui dando mais detalhes para cada capítulo, explicando como a cena irá se desenrolar, o que os personagens estarão vivendo naquela cena, o que estarão pensando e falando.

(Foi nesse momento, nesse caso específico, que me dei conta que eu estava, na verdade, escrevendo um outline ao invés de um draft. Era um outline bem detalhado, mas ainda assim era um outline.)

Essa outline ficou com quase 25 mil palavras. Na minha opinião esse já é um volume grande de palavras, com bastante detalhamento, mas ainda assim senti que alguns capítulos estavam superficiais e fui eliminando aqueles que não estavam acrescentando muito.

5 – Timeline com Pontos-Chave

Depois de criar esse outline mais detalhado, eu percebi alguns furos na história e algumas coisas que estavam faltando. Resolvi, então, montar uma tabela onde coloquei os 6 pontos fundamentais na cronologia da minha história. Listei os meus quatro personagens principais e mais uma meia dúzia de personagens secundários, que são fundamentais para contar a história. Assim, fui preenchendo a tabela, definindo como cada personagem se comporta e interage em cada momento da história, definindo suas mudanças e sua evolução.

6 – Outline final

Agora, pretendo reescrever tudo, ainda em formato de outline, mas planejando cada capítulo e cada cena com ainda mais detalhes, inserindo os elementos que incluí na timeline.

Minha ideia é só começar a dar um formato mais final para o texto quando estiver satisfeito com esse outline, já bem definido e com ainda mais detalhes.

 

Espero que esses novos passos me ajudem a ter um livro melhor. Mas se não der certo, também não tem problema. Revejo o processo e tento de outra forma.

 

Novo Livro, Novos Aprendizados

capaebook72

Acabei de publicar mais um livro.

E isso significa dizer que eu terminei de escrever um livro. Mas existe uma diferença muito grande entre as duas coisas.

Essa é a segunda vez que eu termino esse livro. Há alguns meses eu tinha dado como finalizado o “Querendo Ser Elvis” e estava apenas na dúvida se publicava ou não (isso já era um sinal de que eu não considerava o livro acabado). E isso estava me incomodando.

Por que eu não estava satisfeito?

Para mim é normal terminar de escrever um texto e achar que ele poderia ficar melhor. Faz parte do processo e principalmente do prazo que eu tenho para escrever. Mas, nesse caso específico, eu não tinha um prazo definido para lançar um livro. Só achava que já tinha passado muito tempo com essa história e não sabia direito o que melhorar.

Decidi então passar para algumas pessoas lerem e darem suas opiniões. E isso gerou um aprendizado enorme.

Os comentários e as críticas foram excelentes. Recebi feedbacks incríveis sobre personagens, dicas de como intensificar o plot e sugestões de como apresentar melhor a história toda, incluindo outras formas e outros pontos de vista.

Depois de analisar cada comentário, eu fiz uma lista de tudo que eu achava pertinente e possível de alterar. Foi então que aconteceu mais um grande aprendizado. Eu simplesmente tive que desapegar de certos aspectos, abandonando alguns detalhes da história e tive que criar novos detalhes, novos personagens, novas relações e novos conflitos.

Para se ter uma ideia, a história é sobre um vocalista e letrista de uma banda famosa, mas até a versão que eu tinha escrito, eu não mostrava nenhuma música da banda. Fazia algumas citações de nome de música e versos durante a história, mas nada muito elaborado. Então, durante o processo de reescrita eu resolvi criar uma dezena de músicas para a banda, e, com elas também tentei mostrar a evolução do personagem, justamente usando as letras que ele escrevia.

Das diversas lições que eu aprendi durante essa redefinição do “Querendo Ser Elvis”, a primeira delas foi entender que uma história só está pronta quando você está satisfeito com ela e, até isso acontecer, eu posso mudar o quanto eu quiser. E o maior desafio é encontrar motivação e paciência para dar uns passos atrás e refazer grande parte do que tinha feito, para depois seguir em frente com mais confiança.

Mas o resultado, acredito eu, ficou bem melhor. Valeu a pena.

 

 

A soma do tempo

Na minha busca por tempo para escrever, eu comecei a refletir sobre coisas que parecem tomar muito tempo, mas na verdade não levam tanto tempo assim. Ao mesmo tempo, comecei a ficar intrigado com o quanto desperdiçamos de tempo com pequenas coisas, que acumuladas, tomam um tempo gigantesco.

Nossos dias estão repletos de atividades, mas estão cheios de oportunidades de se encontrar tempo. Fazemos muitas coisas todos os dias. A questão é conseguir trocar algumas atividades pouco úteis, por algumas outras, mais produtivas.

Um dia desses me deparei com um texto maravilhoso, de David Eagleman, em forma de vídeo, que traz um raciocínio muito interessante sobre essas atividades mundanas, suas repetições e o tempo.

Sum from Studiocanoe on Vimeo.

Fiz a tradução para dividir com mais pessoas:

SOMA

Na vida após a morte você revive todas as suas experiências, mas com os eventos arranjados em uma nova ordem: todos os momentos que possuem uma mesma qualidade são agrupados.

Você passa dois meses dirigindo pela rua da sua casa, sete meses fazendo sexo. Você dorme por trinta anos, sem abrir seus olhos. Durante cinco meses seguidos você folheia revistas enquanto está sentado em um vaso sanitário. Você sente todas suas dores de uma vez, durante as vinte e sete intensas horas que isso leva. Ossos quebram, carros batem, pele é cortada, bebês nascem. Depois que isso passa, você está livre da agonia para o resto da sua vida após a morte.

Mas isso não significa que começará a ser agradável. Você passará seis dias cortando suas unhas. Quinze meses procurando por objetos perdidos. Dezoito meses esperando na fila. Dois anos de tédio: olhando por uma janela de ônibus, sentado em um terminal de aeroporto. Um ano lendo livros. Seus olhos irão doer e você vai se coçar, porque você não pode tomar um banho até chegar a hora de você ter a sua maratona de duzentos dias seguidos de banho. Duas semanas se perguntando o que acontece quando morremos. Um minuto se dando conta que seu corpo está caindo. Setenta e sete horas de confusão. Uma hora percebendo que esqueceu o nome de alguém. Três semanas descobrindo que você estava errado. Dois dias mentindo. Seis semanas esperando o sinal ficar verde. Sete horas de vômitos. Quatorze minutos sentindo pura alegria. Três meses lavando roupas. Quinze horas assinando seu nome. Dois dias amarrando cadarços. Sessenta e sete dias de desgosto. Cinco semanas dirigindo, perdido, sem saber o caminho. Três dias calculando quanto dar de gorjeta. Cinquenta e um dias decidindo o que vestir. Nove dias fingindo que sabe do que está falando. Duas semanas contando dinheiro, dezoito olhando fixamente para a geladeira. Trinta e quatro dias de expectativa. Seis meses assistindo a comerciais. Quatro semanas remoendo pensamentos, tentando descobrir se há algo melhor para se fazer com o seu tempo. Três anos engolindo alimentos. Cinco dias fechando botões e zíperes.

Quatro minutos imaginando como seria sua vida se você reorganizasse a ordem dos eventos.

Nesta parte da vida após a morte, você imagina algo parecido com a vida que você teve e esse pensamento é maravilhoso: uma vida em que os episódios estão divididos em pequenos pedaços fáceis de se aguentar, onde os momentos não são insuportáveis, e você prova da alegria de saltar de um evento para o próximo como uma criança pulando de um pé para o outro na areia ardente.

 

Como ter uma mente produtiva

Nos últimos tempos, ando obcecado por produtividade.

São tantas histórias que eu tenho vontade de escrever, mas sempre acabo tendo que escolher, porque o processo, muitas vezes demorado, me limita a produzir poucas histórias.

Mas então lembro dos vários escritores prolíficos que existiram e ainda existem por aí. Autores que conseguem produzir vários livros por ano, usando vários pseudônimos ou simplesmente não se importando com o que pensam sobre esse ritmo de produção. É que existe muita gente no mercado editorial que torce o nariz para autores que publicam demais, dizendo que não é bom para a carreira e que perdem em qualidade. Na verdade, o que eu acredito é que o processo não sai prejudicado, a diferença é que os autores prolíficos simplesmente não perdem tempo e produzem constantemente.

Se fizermos uma conta rápida e imaginar que um livro, em média, tem 70 mil palavras e uma pessoa é capaz de escrever tranquilamente 1000 palavras por dia (isso é bem tranquilo mesmo), pode-se produzir um livro a cada 70 dias. O que dá 5 livros em um ano.

(É claro que tem a fase de reescrita, edição e revisão, mas também devemos levar em consideração que um escritor pode ir além das 1000 palavras por dia.)

Analisando friamente o trabalho necessário, chegamos a conclusão que é possível produzir bem mais do que um livro por ano. E, produzindo mais, melhora-se o processo, já que quanto mais você escreve, melhor e mais rápido você fica.

Porém, a grande verdade é que o ato de escrever não é o problema, o difícil é se comprometer com um tempo para escrever.  O grande desafio é: como usar o tempo que tenho de sobra para escrever?

Portanto, eu estou agora em busca de uma rotina e um hábito de escrita para aumentar minha produtividade. Tenho testando diversos métodos e formas diferentes de encarar o trabalho.

O nosso cérebro é uma máquina poderosa, tanto para o bem, como para o mal. Basta observar que, se queremos arrumar desculpas para não fazer alguma coisa, pronto, temos milhares de justificativas. Nossos pensamentos arrumam todos os motivos e razões para não fazer nada. Portanto, podemos usar essa mesma capacidade do cérebro para produzir mais.

Descobri que não posso deixar meu cérebro achar que eu deveria estar fazendo outra coisa ao invés de escrever. Não posso deixar que ele pense que aquilo que eu pretendo fazer não precisa ser feito naquele momento e pode ser deixado para depois.

Se conseguimos criar desculpas, conseguimos criar motivação. E assim eu aprendi alguns truques para fazer minha mente ter disposição e não me sabotar.

Criar pequenas recompensas

Às vezes eu sinto vontade de fazer outra coisa ou simplesmente, parar e comer chocolate. Então eu penso que para merecer aquele descanso ou aquele chocolate, eu preciso escrever pelo menos 1000 palavras ou escrever por pelo menos uma hora. (Eu sei que parece meio infantil, mas lembre-se que fomos treinados dessa forma desde que nascemos, então faz sentido). Após eu escrever meu texto ou cumprir determinado tempo, eu recebo minha recompensa.

Criar intervalos

Eu divido o tempo entre trabalho e prazer. Além do intervalo funcionar como recompensa, temos outro truque que é a quebra da tarefa. Muitas vezes acreditamos que a tarefa será muito trabalhosa e já desistimos dela, apenas por vislumbrar um desafio muito grande que achamos que não iremos conseguir. Por exemplo: escrever por duas horas no dia. Começamos a achar que não vamos conseguir trabalhar por duas horas seguidas e seremos interrompidos, então nem vale a pena começar, etc, etc. Mas então, quando fracionamos esse tempo em 4 blocos de meia hora, com intervalos de lazer entre eles, fazemos tudo mais facilmente.

Pequenas doses, grandes mudanças

Para os momentos de maior grau de procrastinação, eu engano o meu cérebro com pequenas doses. Pense assim: “vou fazer apenas por cinco minutos”. E faça apenas por cinco minutos. Se você sentir vontade de parar depois do cinco minutos, pare. Mais tarde, faça apenas mais cinco minutos, novamente. Mas caso você sinta vontade de continuar, continue. Você vai perceber que, em muitos casos, o problema era começar. Uma vez que você já colocou seu corpo e sua mente naquele trabalho, você acaba embalando e não para (lei da inércia). Essa tática do “apenas 5 minutos” é uma grande forma de começar a criar hábito, que é o truque mais importante.

CRIE HÁBITOS

Hábito é o mais importante para a produtividade. Não tente apenas fazer uma vez, esperar uns dias, fazer de novo. Tente começar uma rotina diária. Mesmo que seja uma sessão de 5 minutos por dia, faça todos os dias, por pelo menos 3 semanas. Um hábito é criado após 21 dias de repetição. Então, não desista nesses primeiros dias. Eles são importantes para criar uma rotina. Você vai perceber que, depois de criada a rotina, fica mais fácil melhorá-la ou criar uma nova.

Leituras 2016 – #4 – Mona Lisa Overdrive

mona_lisa_overdrive_frente_alta

Terminei de ler a Trilogia Sprawl, do William Gibson.

Já falei um pouco sobre o autor, a trilogia e a importância para o gênero nesse post aqui quando escrevi sobre o Count Zero.

Mona Lisa Overdrive é o terceiro e último livro e se passa quinze anos após os acontecimentos do Neuromancer e oito anos depois do Count Zero. Ele tem uma relação muito mais direta com os outros dois livros e explora conceitos bem legais, misturando inteligências artificias com divindades, fantasmas e Alef.

No Mona Lisa Overdriver, Bobby Newmark, o Count Zero, está vivendo dentro da Matrix e o corpo dele (que está em uma espécie de coma) está sendo mantido por outras pessoas.

A Molly Millions também reaparece, usando um outro nome. A Angie, que é menina com implantes no cérebro do segundo livro, também faz parte da história e agora ela é uma atriz, celebridade na Simstim.

Mais uma vez, Gibson usa narrativas paralelas para construir o plot do seu livro.

Em uma delas, a filha de um chefão da Yakuza é mandada para Londres para evitar os riscos da guerra entre as máfias japonesas e ela acaba se envolvendo com Molly Millions.

A personagem que dá título a obra encabeça outra narrativa. Mona é uma prostituta que se parece fisicamente com Angie e acaba sendo usada em um plano para sequestrar a estrela da Sense/Net.

E em uma terceira narrativa, temos Slick Henry, que trabalha em uma espécie de ferro velho de máquinas e robôs e acaba sendo envolvido na manutenção do corpo de Count Zero.

A verdade é que se eu não tivesse ganho o box com a trilogia completa, talvez eu nunca tivesse lido esse livro.

Como falei antes, Neuromancer é um livro de difícil leitura, complexo na hora de entender algumas descrições e ruim de manter o foco. O segundo livro, Count Zero, é um pouco mais tranquilo de ler, mas, mesmo assim, não flui tão bem, deixando o leitor meio perdido.

Mas, na minha opinião, Mona Lisa Overdrive é o melhor livro da trilogia. A impressão que eu tenho é que William Gibson foi deixando a coisa cada vez mais cinematográfica, usando uma linguagem mais simples e direta para ambientar cenas e focando na relação dos personagens e nas ideias malucas. Achei as ideias explorando o cyberspaço ou Matrix ainda mais criativas nesse livro.

Acho que o autor se soltou mais e pôde criar algo melhor e mais acessível, mas ainda sim sem cair em clichês ou deixar sua obra menos marcante.

Sem dúvida, eu iria me arrepender se eu tivesse parado no Neuromancer.

Leituras 2016 – #3 – Cidade de Vidro

city

Eu mantenho sempre uma lista de próximos livros que quero ler. Não necessariamente uma ordem fixa, mas coloco sempre algumas prioridades, seja por causa do gênero, do estilo, do ponto de vista ou do autor.

De vez em quando, eu acabo descobrindo algum livro interessante e acabo lendo antes de muitos outros que estão esperando sua vez.

Foi o que aconteceu com o livro Cidade de Vidro.

Eu descobri o livro de Paul Auster por acaso, lendo uma matéria sobre trilogias que me deixou muito curioso.

Paul Auster escreve histórias policiais, mas usando um estilo pós-moderno, repleto de absurdos, coincidências e adora uma metalinguagem, que deixa tudo ainda mais maluco ainda.

Cidade de Vidro é a primeira história que forma “A Trilogia de Nova York” e conta a história de Daniel Quinn, que também é um escritor de histórias policiais e recebe uma ligação por engano. A pessoa do outro lado da linha procura por um detetive particular. E aqui começa a doidera. O detetive particular se chama: Paul Auster.

E as maluquices não param mais. Não só na história, mas na própria construção da narrativa.

Paul Auster deu o seu nome para o personagem do livro, mas o livro não é em primeira pessoa, ou seja, não é narrado por esse Paul Auster, detetive particular.

800px-Paul_Auster_BBF_2010_Shankbone

Daniel Quinn, o personagem principal, também escreve livros policiais e decide fingir que é Paul Auster, o detetive particular, para sentir na pele o que sempre escreveu.

O protagonista então começa a investigar uma trama enlouquecida da busca de um homem pelo paraíso, Torre de Babel, linguagem primal, etc. Essa parte da história é narrada usando muita a técnica de exposição. E tanto por esse estilo como pelo conteúdo, me lembrou muito as histórias de Borges, Lovecraft e Poe. Uma história misteriosa e intrigante, que ele vai tomando conhecimento por livros que ele pesquisa na biblioteca. Essa parte do mistério poderia render muito mais, mas Auster optou por apenas usar isso como um pano de fundo para toda a trama.

Para mim, o mais interessante do livro é que Paul Auster se prende a nenhum formato pré-definido, ficando até difícil de cataloga-lo como livro de mistério. Além disso, a questão de identidade é um tema que ele explora bem, desde a questão do personagem se passar por outra pessoa, depois descobrir que essa outra pessoa é diferente do que ele pensa e ainda tem relação com ele próprio (não vou dar spoiler).

Por tudo isso, Cidade de Vidro é denso e complexo, apesar de curto. É um livro que nos faz querer cada vez mais abandonar a preocupação com formas, explorar temas intrigantes, produzindo algo realmente autêntico, mesmo não agradando a todos. E, principalmente, nos dá uma lição em como evitar os clichês dos gêneros literários.

Neuromancer x Blade Runner – A determinação de William Gibson me motiva

Neuromancer_(Book)Blade_Runner_poster

Estou lendo a Trilogia Sprawl, de William Gibson, e escrevi meu último post sobre a leitura de Count Zero, o segundo livro da série.

Para escrever esse post, eu consultei algumas informações sobre o autor e sua obra. E uma informação me chamou a atenção.

Em 1982, William Gibson recebeu a encomenda de escrever um livro para uma série de ficção científica. Quando ele tinha escrito dois terços do que viria a ser o Neurmonancer, seu primeiro livro, William Gibson assistiu ao filme Blade Runner e ficou preocupado.

Gibson achou que seu livro ia ser um fracasso, porque todo mundo iria achar que ele copiou todo o visual e clima do filme de Ridley Scott, baseado em um livro de Philip K. Dick, outro grande autor de ficção científica.

Por causa disso, William Gibson reescreveu 12 vezes esses dois terços do livro e mesmo assim ainda achava que iria passar vergonha quando o livro fosse lançado.

Essa curiosidade me fez relembrar que as pessoas às vezes acham que os grandes autores escreveram suas obras de primeira e que eles nunca passaram por momentos de descrença em seu próprio trabalho.

Além disso, percebemos sempre que um autor precisa ter a determinação e o desapego necessário para poder reescrever, reescrever e reescrever. Esse processo é difícil, penoso e desgastante, mas fundamental.

No momento, estou no meio do processo de reescrever um livro e para mim sempre é muito complicado. Mas saber que William Gibson precisou reescrever 12 vezes o Neuromancer me dá um pouco mais de motivação para continuar trabalhando na minha história.